RESENHAS
Livros & Artigos

21/7/2021: A SALVAÇÃO NA RELIGIÃO TRADICIONAL AFRICANA NO CONTEXTO BANTO - Táta Kamuxinzela

O livro de José Armando Vicente, A salvação na Religião Tradicional Africana no contexto banto (Loyola, 2021), é um daqueles exemplares que costumo comprar no chute. Pesquisando sobre fontes confiáveis acerca da cultura e religião dos banto, eu cheguei até o livro acidentalmente. O inseri junto a outras literaturas e pedi. Por conta disso foi o primeiro que comecei a ler dessa última leva de livros e não consegui desprender os olhos dele até terminar.​

   O autor é africano, nascido em família e praticantes dos costumes e tradições banto. Filósofo, teólogo e sacerdote católico, destemido se colocou a revisar os estudos acadêmicos de autores consagrados, historiadores, antropólogos, sociólogos, arqueólogos e etnógrafos que descreveram, rotularam e classificaram a Religião Tradicional Africana (no contexto banto) como fetichista, animista, vitalista, culto satânico etc. O autor se propõe a demonstrar que essas classificações são equivocadas e pejorativas, apontando erros interpretativos na medida que expõe de forma introdutória e profunda a cultura religiosa e filosófica dos banto.

   Respondendo uma das indagações me enviadas via Instagram, eu disse que é impossível tirar da Quimbanda seu eurocentrismo, de onde vem a influência da feitiçaria ibérica cipriânica-faustina (Maiorais, hierarquia infernal, demônios etc.), e que para àqueles que desejam fortemente, é possível resgatar profundamente as raízes banto do culto. Existem famílias cabulístas ainda em atividade dispostas a transmitir a ciência sagrada dos Mahamba (divindades da cultura banto). José Armando Vicente demonstra que a RTA – Religião Tradicional Africana foi associada a diabolismo e satanismo na África, muito antes de chegar ao Brasil. O sincretismo criado a partir do encontro entre cultura banto, cristianismo e islã tratou-se de uma tendência religiosa que rejeitava a dominação política e cultural que essas religiões impunham. Um elemento de coesão social e arma contra a opressão e dominação estrangeira, diz o autor. Então vemos que essa força de resistência (sincrética) que culminou na eclosão do Quilombo nos chega ancestral, transferida a Cabula, a Macumba e materializada efetivamente na Quimbanda. Os símbolos e o sincretismo diabólico da Quimbanda, portanto, representam essa luta e resistência antes de qualquer coisa!

   Após analisar as classificações acadêmicas mais correntes acerca da religião dos banto, o autor faz uma análise concisa do sistema e estrutura religiosa do culto, demonstrando que para os banto não há separação do profano e o sagrado. A religião, os Mahamba, estão presente no dia-a-dia, nas ações mais triviais da vida. A vida, por outro lado, é uma joia preciosa, porque ela armazena todo potencial genético ancestral completamente concentrado no homem. A cultura é orientada, portanto, a construir um equilíbrio energético entre o indivíduo, sociedade e cosmos para viver bem a vida.

   Na segunda parte do livro o autor se propõe a fazer uma comparação e daí cria inúmeras pontes entre o cristianismo e a tradição religiosa dos banto.

30/6/2021: O SEGREDO DA MACUMBA - Táta Kamuxinzela

O livro O Segredo da Macumba dos autores Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade (Editora Paz e Terra, 1972) tem sido citado por antropólogos, etnólogos e sociólogos como uma das melhores introduções a Macumba (e Umbanda e Quimbanda) carioca e paulista. A obra trata-se de uma apologia a Quimbanda (i.e. a Macumba) em um tempo em que a Umbanda crescia aos bons olhos da sociedade enquanto que a Quimbanda era relegada a criminalidade e obscuridade. Acrescentando, os autores se esforçam por fazer uma leitura a partir do marxismo e da psicanálise. O livro é ótimo por muitos fatores, mas fundamentalmente por colocar os pingos nos is acerca da natureza caótica, rebelde e insurgente da Quimbanda como movimento contracultura ao status quo religioso e social da sociedade brasileira contemporânea.

   Interessante que os autores fazem várias afirmações confirmando tudo o que vim escrevendo e falando no site Filosofia Oculta, material este que está em revisão para publicação. Vou fazer uma breve demonstração. Os autores dizem: Na Bahia o feiticeiro tem o poder de si mesmo e não da entidade que o possui, de quem ele é o «cavalo». (p. 21) A afirmação vem de uma característica peculiar da obra: a ênfase em demonstrar as diferenças gritantes entre a Macumba carioca e paulista e os Candomblés da Bahia.

   Eu demonstrei várias vezes que a Quimbanda preserva uma fórmula mágica universal, àquela do conhecimento e conversação com o espírito tutelar que ao longo da história manteve-se presente como o arcano mágico de inúmeras tradições. O espírito tutelar, a comunicação efetiva com ele, tem sido o objeto de busca de todos os magos e feiticeiros do passado, porque desde a Antiguidade considera-se que este espírito tutelar (ou familiar) pode transmitir ao feiticeiro, seu adepto, os seus poderes. Inúmeros personagens, como demonstrei em DAEMONIUM (Vol. I), ilustram perfeitamente e expõem essa fórmula mágica: Simão o Mago, Salomão e demônio Ornias, Fausto e seu diabo pessoal, Mefistófeles, São Cipriano e o Diabo, Abramelin e o Sagrado Anjo Guardião etc. Na Quimbanda, como os feiticeiros da Antiguidade, o espírito tutelar transmite a seu adepto, o kimbanda, o seu àṣẹ ou poder. O culto a òrìṣà preserva uma fórmula mágica diferente, porque a cultura nágô-yorùbá possui um refinamento filosófico e religioso distinto da cultura banto, que alimenta a cosmovisão da Quimbanda. No culto a òrìṣà o poder do feiticeiro vem efetivamente do Orí, a faculdade de individuação e vontade. Quanto mais forte for o Orí, mais bem cuidado e alimentado, mais forte será o feiticeiro. Na cultura banto e força mágica que o kimbanda possui, o moyo, vem dos espíritos ancestrais. Sobre esse tema veja Filosofias Africanas, de Nei Lopes e Luiz Antônio Simas (Civilização Brasileira, 2020).

   Outra exposição dos autores: O Candomblé celebra em seus deuses as forças da natureza: a floresta, a cachoeira, as águas, o mar, o raio. As divindades estão bem próximas da mitologia grega. A Macumba, por sua vez, substitui a natureza pela história: os caboclos e os preto-velhos. É a história que é representada e exaltada. (p. 22) Por diversas vezes eu velho colocando ênfase no fato de que o culto as criaturas da natureza, encantados que encarnaram ou não, òrìṣà, estão associados à estrutura do cosmos. O culto aos mortos, ancestrais divinizados familiares ou da comunidade, os irúnmalè, está diretamente associado à estrutura da sociedade, suas revoluções e convulsões sócio-culturais. Uma casa de Candomblé busca em sua estrutura física imitar essa estrutura cósmica e social, em acordo a cultura nàgô-yorùbá. Sobre esse tema é interessante ver Os Nāgō e a Morte de Juana Elbein dos Santos (Editora Vozes, 1975, p. 108). Na cultura banto a interação com os espíritos da natureza, os nkisi, ocorre através dos ancestrais, tatás e ngangas, porque são estes que afirmaram com os espíritos da natureza os primeiros elos entre eles e os homens. Por conta disso, da interação com os espíritos ancestrais para garantir a harmonia e o bem-estar social, que a cosmovisão banto que alimenta a Quimbanda coloca ênfase no trabalho com a estrutura da sociedade antes da estrutura do cosmos. Sobre isso veja o artigo de Robert Daibert, A Religião dos Bantos em Estudos Históricos, Vol. 28, No. 55, ps. 7-25. Isso diz tudo sobre a natureza da Quimbanda como apresentada em O Segredo da Macumba.