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A tradição literária de um culto, religião ou corrente mágica só se apresenta a partir de seu desenvolvimento e alguma maturação. Os primeiros manuscritos sobre o cristianismo primitivo apareceram quase cem anos depois de Cristo; os primeiros escritos umbandistas apareceram vinte anos depois da primeira manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas segundo a narrativa mítica das origens da Umbanda. As primeiras publicações sobre a Quimbanda apareceram nas décadas de 1940 e 1950 por meio dos esforços de intelectuais umbandistas. As primeiras giras de Exu dentro da ritualística umbandista datam da década de 1940 também, mas há casos relatados da presença de Exu em sessões esparsas da Umbanda e da Macumba nas décadas de 1920 e 1930. A partir da matriz Macumba, entre 1900 e 1940 a Umbanda e a Quimbanda como sistema nascem e se legitimam independentes um do outro, mas congruentes e convergentes, o que acabou por construir narrativas equivocadas acerca da dependência e conexão direta entre ambas, muito embora a sistematização da Umbanda auxiliou a eclosão da Quimbanda.

 

Aluízio Fontenelle na década de 1950 se esforçou por demonstrar que a Quimbanda era outro nome para as práticas fetichistas e primitivas do africanismo presente na Macumba. Quimbanda tornou-se sinônimo de Macumba e por extensão também de feitiçaria maléfica, magia negra diabólica, culto ao Diabo na forma dos Maiorais (Lúcifer, Beelzebuth e Ashtaroth) e baixo espiritismo; diferente da Umbanda que seguia esforçando-se por se adaptar a sociedade cristã do Brasil, salubrizando e embranquecendo a cultura africana, denominando-a magia branca, alta magia, magia de luz e espiritismo científico.

 

A primeira conformação da Quimbanda acompanhou os esforços de umbandistas para criar o cosmos da Umbanda, estruturando-se no que ficou conhecido como Sete Linhas de Quimbanda, sendo a Quimbanda Nàgô uma dessas linhas. O culto recebeu esse nome porque sua fundamentação prática baseou-se na religião tradicional yorùbá, muito embora mantivesse fidelidade tanto a cosmovisão banto quanto a luta pela preservação da cultura africana. Distanciando-se para muito longe da Umbanda que embranqueceu suas raízes negras, a Quimbanda não se submeteu aos dogmas e a moral do cristianismo. Por esse motivo, demonizada e criminalizada, a Quimbanda foi renegada as sombras e incredulidade.

 

O imaginário popular da Quimbanda começou a crescer na década de 1950, quando Fontenelle caracterizou a chancela mágica (ponto riscado) do Chefe Império Maioral (veja imagem de fundo) e a iconografia diabólica do culto, sincretizando Exus e demônios do Grimorium Verum, um manual de magia salomônica do Séc. XVIII. Maioral, o Chefe da Quimbanda, tomou a forma do Bode de Mendes ou o Baphomet de Eliphas Levi; os Exus e Pombagiras tomaram formas diabólicas e imagens foram construídas para antropomorfizá-los, no entanto, com chifres, rabos e pés de bode.

 

A iconografia de Baphomet como o Maioral da Quimbanda com seu famoso ponto riscado, as imagens em gesso dos Exus e Pombagiras, os assentamentos e sua conformação secreta, os ferros, os métodos de feitiçaria congo-angolanos miscigenados a feitiçaria ibérica e ameríndia, deu nascimento a Quimbanda Nàgô cuja gerencia espiritual foi atribuída a Exu Gererê.

 

A conformação das Sete Linhas criadas inicialmente para compor a cosmovisão dualista da Umbanda é importante porque ela precede o sistema de Sete Reinos que começou a vigorar na Quimbanda no fim da década de 1980. A divisão de dois reinos, cemitérios e encruzilhadas, que Fontenelle propôs na década de 1950 parece ter sido o pontapé inicial para a sistematização dos Sete Reinos como conhecemos, que passaram a incluir as Sete Linhas distribuídas entre os Povos de Exu que compõem os Reinos. As Sete Linhas não são vertentes de Quimbanda, mas linhas de trabalho. Vamos a um exemplo: a Linha dos Caboclos Quimbandeiros, espíritos quizumbeiros das matas, não é uma vertente de Quimbanda. Não existe quem seja iniciado na Linha dos Caboclos Quimbandeiros. No entanto, essa linha de trabalho responde dentro da Quimbanda Nàgô no Reino das Matas. Aqui no nosso Chão de Quimbanda cujo Chefe da Casa é Exu Pantera Negra trabalhamos com a Linha dos Caboclos Quimbandeiros dentro da Quimbanda Nàgô. De igual modo, Exu Caveira e sua consorte Maria Táta Caveira, também são do alto comando da casa e, portanto, temos aqui trabalhos na Linha dos Caveiras. As linhas se entrelaçam acompanhando a religiosidade endógena da Quimbanda, quer dizer, a síntese brasileira a partir das matrizes africana, europeia e ameríndia.

 

Fontenelle é importante também porque além de ser uma testemunha ocular do desenvolvimento da Quimbanda como culto distinto da Umbanda, é nele que encontramos as primeiras referências sobre o Chefe Império Maioral regendo os trabalhos do Povo de Exu, que ele identifica como Satanás (e Lúcifer) representado na imagem teriomórfica de Baphomet. E é interessante notar que Fontenelle coloca ênfase no fato de Maioral ser o regente de todo o Povo de Exu, quer dizer, de todas as Sete Linhas ou na dimensão que ele mapeia a Quimbanda, os dois Povos do Reino de Odum. O que confirma e repete na década de 1990 José Maria Bittencourtt, repetindo também o sincretismo dos Exus com demônios do Grimorium Verum.

 

Até aqui nós falamos da tradição literária e, portanto, do testemunho ocular de ocultistas umbandistas e kimbandas entre as décadas de 1940 e 2000 que apreciaram e acompanharam o desenvolvimento da Quimbanda e da Umbanda como sistemas separados, embora congruentes: a Umbanda e a Quimbanda são linhas opostas, nunca se encontram, repetiu José Maria Bittencourtt a mesma tese de Aluízio Fontenelle e antes dele, Lourenço Braga, porque na visão destes umbandistas a Quimbanda trata-se de uma penunbra no cosmos da Umbanda, uma região onde não chega luz. Se por um lado a Umbanda recebeu legitimação social após muita luta no seu esforço de embranquecer suas raízes negras, a Quimbanda por outro lado continua até hoje marginal pelo fato de não se adequar ao embranquecimento de suas raízes.

 

Não é possível saber onde, quando ou com quem exatamente se iniciou a Quimbanda Nàgô. A tradição oral diz que o culto quem trouxe foi o próprio Exu Gererê em terra, sendo ele o espírito primordial dessa Banda, iniciando uma linha de trabalho de Quimbanda dentro dos métodos de feitiçaria congo-angolanos, muito próximos da fundamentação do Candomblé de Caboclo. Deste mesmo tronco também nasce a Quimbanda de Angola & Almas cujo espírito primordial trata-se de Exu-Rei Omolu. Essa é a gênese da vertente (ou linha de trabalho) chamada Quimbanda Nàgô, que depois disso se espalhou por todo Brasil, principalmente nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, acompanhando a modernização, industrialização e urbanização destes grandes centros comerciais.

 

É interessante notar que desde sua matriz, a Macumba, a Quimbanda acompanhou a intensa mudança cultural que ocorreu desde o fim da escravidão até a formação dos conglomerados industriais, suprindo – como é o papel de toda genuína feitiçaria – os anseios e necessidades da vida nos grandes centros. Com a mudança vertiginosa de uma sociedade agrícola e escravocrata para uma sociedade industrial de trabalho livre, os centros urbanos começaram a concentrar as maiores fontes de renda, o que aumentou a população nas cidades e diminui a população nos campos. Foi nesse contexto de mudança social que o Candomblé de Caboclo saiu da Bahia e chegou ao Rio de Janeiro e em São Paulo, se encontrando e se miscigenando com a Umbanda e com a Macumba em certa medida. É desse encontro que nasce a Quimbanda Nàgô, primeiro de maneira muito rudimentar dentro do Candomblé de Caboclo que gradualmente começou a se umbandizar para, em um segundo momento, desenvolver-se e aprimorar-se completamente para muito além deste. O termo Coroação de Exu vem dessa época, onde a iniciação e assentamento do Culto de Exu durava uma semana, entre a mata e o terreiro.

 

A tradição oral diz que nós louvamos Exu Gererê como espírito primordial para através dele louvarmos todos Exus que vieram antes dele e a memória de todos os adeptos que vieram antes de nós. A Quimbanda Nàgô é considerada a mais antiga de todas e em um passado não tão distante, muitos Tátas nem sabiam que os fundamentos que estavam praticando eram a vertente nàgô da Quimbanda. Em nossa Banda somos: Anderson do Exu Tranca-Ruas, Táta Nganga Kimbanda Kilumbu do Exu Marabô, Táta Nganga Kimbanda Malembu Mikunga do Exu Sete Catacumbas e Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela do Exu Pantera Negra.

 

Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela (Fernando Liguori)

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite