Umbanda & Quimbanda



A Umbanda surge da necessidade de um povo, do choque das culturas e da assimilação dos processos religiosos e mágicos, resultando em algo completamente diferente das religiões originais, mas que trazem muito em semelhança a essa.


A origem da Umbanda é praticamente o choque entre o sistema tradicional religioso e mágico das culturas banto, conhecido como cultos angoleiros, que vem a dar nos Calundus e posteriormente na Cabula e na Macumba carioca, amalgamados com o conhecimento mágico e ritualístico do povo da terra, os povos originários, os povos indígenas.


Acrescidos disso encontramos também a influência mágica europeia, principalmente a magia dos grimórios por meio dos textos cipriânicos-faustinos e da tradição da benzedura e da maldição propagada entre as bruxas populares.


E a Quimbanda, com se dá sua formação? Do mesmo jeito. A diferenciação se dá por uma introdução de uma filosofia cristã posterior e uma moral maniqueísta dentro da Umbanda, com tentativas de uma regularização, centralização de culto e homogeneidade dos sistemas de crença.


A Quimbanda permanece rebelde, conectada com a natureza real do planeta, do chão e da terra. Com a necessidade dos espíritos e com a realidade da magia que não depende da fé para funcionar.


Táta Kamuxinzela diz que:


Inúmeros umbandistas, pais de santo da Umbanda, têm buscado pela iniciação na Quimbanda Nagô. Ao chegarem, é quase que universal a descrição do processo pelo qual estão passando: um chamado da Quimbanda! Esse chamado é em verdade um impulso de reconexão com os primórdios da Umbanda onde – e muito distante do mito de Zélio de Morais e a fundação da Umbanda – Quimbanda não era apenas instrumento de demanda, mas a escora energética do terreiro umbandista.


Esse pensamento vem do Táta Malembu, iniciador de Táta Kamuxinzela na Quimbanda Nagô:


Os espíritos que trabalham dentro da Umbanda recebem sacrifício; essa prática se perdeu no tempo, mas antes do embranquecimento da Umbanda sempre foi assim. Preto-Velho, Caboclo, Marinheiro e Boiadeiro sempre tiveram sacrifício e assentamento.


Em busca de um resgate a Umbanda se unir a Quimbanda não terá prejuízo algum. Na verdade, ocorrerá um enriquecimento mágico.


Foram os movimentos modernos de Quimbanda se proliferando pela internet que enunciaram essa ideia de que a Quimbanda é separada ou se opõe a Umbanda.


Só que esses enunciados modernos nunca refletiram de fato a realidade do culto, que já era bem mais antigo e com raízes em um tempo que nem se imaginava ter internet.


A Quimbanda Nagô está proliferada em várias tradições: Jurema, Tambor de Mina, Candomblé e muitas outras, onde há um encontro entre tradições que se enriquecem. Antigos terreiros de Umbanda tinham seus quartos de Exu com assentamentos e realizavam sacrifícios.


Compreendemos que o kimbanda estão inseridos nos terreiros, fazendo parte do culto de Umbanda, pois a ideia central de ambos é única:


Em busca do Moyo (energia vital) e de seu influxo e equilíbrio por meio da magia que encontramos realmente a harmonia de alma, espírito e matéria.


O entendimento angoleiro – base da Umbanda e Quimbanda – nos traz a ideia de que o que importa é o que uma prática tem a me oferecer, podendo pegar emprestado ou tomar posse definitivamente de um sistema mágico de outra cultura e inserir ele de forma a encaixar no meu entendimento. Isso, tanto Umbanda, quanto Quimbanda, fazem em suas raízes.


Assim como Exu, os kimbandas também vão a todos os lugares. Quando Umbanda e Quimbanda estão operando em harmonia no terreiro não existe submissão de forças: os espíritos se respeitam; quando um umbandista se torna um kimbanda ele leva para a Umbanda as armas da Quimbanda.


Se hoje existem terreiros de Umbanda que não têm Quimbanda, não é porque isso nunca existiu dentro da Umbanda, mas porque essa «conjunção alquímica» foi perdida. E uma vez que o umbandista recebe o brajá imperial da Quimbanda Nagô ele não o tira nos seus ritos de Umbanda. Ele é um Kimbanda, aonde quer que vá, seja na «esquerda» ou na «direita».


Nos diz Táta Kamuxinzela.


Esse entendimento nos é claro quando um espírito de direita pede para seu tutelado se iniciar nos processos de Quimbanda, dando a ele uma autonomia mágica para trazer a Quimbanda para sua realidade diária.


A Quimbanda resgata dentro da Umbanda a essência desta última, nos lembrando que elas foram fundamentadas em cultos de resistência, onde a força do oprimido era a magia e os espíritos dos mortos que voltavam a terra para nos aconselhar, guiar e muitas vezes nos vingar.


Compreender o tronco do crescimento destas religiões e de outras aparentadas como o Catimbó, o Jaré, a Encantaria, nos traz uma fortaleza espiritual. No Catimbó caboclo desce e pede assentamento, com corte e isso não implica que ele seja um espírito inferior.


O espírito é sempre desvinculado da perfídia humana e do contexto limitador de estar encarnado em uma moral social. O espírito, seja Exu, Caboclo, Preto-Velho e outros quer resolver a situação. Evolução espiritual é encontrar equilíbrio e isso se perdeu com o tempo.


Hoje vemos uma tentativa de resgate nesse processo de Umbanda e Quimbanda, onde as dúvidas acabam surgindo: Até onde é possível a coexistência de ambas em um terreiro? A resposta para isso é: A coexistência sempre existiu, a identidade sempre foi uma, o que se perdeu foi o entendimento de que a magia deve estar disponível a quem dela precisar.


Como nos diz Táta Kamuxinzela: O kimbanda é um curador, ele na Umbanda também irá curar. Apesar que a cura nem sempre é fechar a ferida, pode ser que a cura venha por meio de sangrias da alma, do espírito e da matéria.


Douglas Rainho

Cova de Cipriano Feiticeiro/SP

Cova de Tiriri


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