Se Toca Katição!



Vez ou outra aparece algum exilado de capela ou alguma criança índigo, uma espécie de morador do espaço que existe entre o Orum e o Ayê, para dizer que eu faço um desserviço a Quimbanda porque defendo o eurocentrismo na cultura afro-brasileira. Deixa-me explicar ao meu irmão katição: é muito importante o resgate da identidade negra e das raízes africanas nos diversos cultos e na própria cultura afro-brasileira. O que não é positivo é querer apagar da história a grande influência que a ancestralidade europeia teve na construção da identidade mágico-cultural do Brasil, nascida dentro de um caldeirão de miscigenação étnica entre europeus, ameríndios e africanos. A Quimbanda é filha dessa mistura cultural.


A Quimbanda como tradição, movimento organizado de adeptos, ou sistema de práticas iniciatórias só começa após a década de 1940 e 1950, impulsionada pelas obras de Lourenço Braga, autor do livro Umbanda e Quimbanda (1942) e apresentador do Primeiro Congresso de Umbanda (1941); e de Aluízio Fontenelle, autor da obra Exu (1951), sendo ele o homem que inseriu a Quimbanda no contexto do Ocultismo[1] associando os Exus mais populares de sua época aos demônios de um grimório (livro de feitiçaria) europeu do Séc. XVIII, e que cristalizou a imagem de Exu como Diabo no imaginário brasileiro.[2]


Esses katições alegam a existência de uma Kimbanda como sistema mágico anterior à década de 1940 e 1950. Uma kimbanda de primórdios, eles dizem, sem incersões europeias. Mas é briza de nóia! Os caras devem estar cheirando carreiras de ìyèrosùn (será mesmo esse o nome do pó?). Primeiro que, como veremos, não existe nada dentro da cultura brasileira, absolutamente nada, repito com ênfase, que não tenha incersões europeias, principalmente cultos religiosos; segundo, existiam sim os kimbandas, quer dizer, indivíduos que cultuavam Exu, como demonstra Leal de Souza em O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda (1925).


É no mínimo uma burrice querer apagar a ancestralidade europeia na cultura afro-brasileira; eles dizem que nós devemos arrancar da macumba a erva daninha do cristianismo. Coitadinha da criança revoltada! Esses rebeldes de causa pobre acham que conseguirão arrancar das profundezas do imaginário – e inconsciente coletivo – brasileiro raízes de mais de quinhentos anos de educação (chame de condicionamento se quiser) e que fundaram a nossa genuína identidade brasileira. Toda a maneira como nossa sociedade ocidental pensa questões como aborto, sexo e casamento, divórcio, abandono de recém-nascido, homosexualidade e prostituição, vem de uma visão de mundo apocalíptica criada e aperfeiçoada pelos primeiros cristãos desde o Séc. I d.C. Goste você ou não disso rebeldinho de cabelo azul e tatuagem na tempora, é essa visão que deu fundação a toda nossa sociedade civilizada ocidental. Não há como matar o cristianismo na macumba ou em qualquer lugar dentro de nossa cultura e sociedade, se toca! Ideias nascidas há setenta anos não matam ideias nascidas há dois mil anos, principalmente se delas derivou o estilo de vida de uma sociedade inteira. Indico a leitura de Elaine Pagels, Adão, Eva e a Serpente (1992) e Rafael Resende Daher, Mística e Escatologia em Qumran: como os essênios formaram o mundo ocidental (2020).


Durante as décadas de 1930 e 1940, no período do governo de Getúlio Vargas, houve uma grande comoção por parte dos intelectuais em definir a identidade da cultura brasileira centrada no estereótipo do mestiço, que representava a miscigenação de três etnias: europeia, ameríndia e africana. Nathália Fernandes, acadêmica historiadora da UFF com especialização na área de repressão policial às religiões de matriz afro-brasileira no período do Estado Novo, diz:


[...] ao longo de toda década de 1930 – e parte da década de 1940 –, o estado brasileiro se empenhou na ampla difusão da ideia de que a singularidade do povo brasileiro consistia em sua composição étnica diversa, ou seja, presença histórica do branco, do negro e do índio em um mesmo corpo social. Dessa maneira, o processo de construção da identidade nacional brasileira, nesse período, é fundamentado nos conceitos de mestiçagem e miscigenação. O encontro dessas três etinias teria como resultado o surgimentgo de uma rica diversidade de hábitos, costumes, crenças, religiosidades, festividades, entre outros elementos culturais que formavam nossa cultura nacional.[3]


A Quimbanda meu nobre katição, é filha dessa rica diversidade de hábitos, costumes, crenças, religiosidades que floresceu do âmago da cultura nacional brasileira; é, portanto, uma genuína expressão dessa rica diversidade baseada nos troncos étnicos europeu, ameríndio e africano. Esses três troncos étnicos são as raízes profundas da árvore ancestral da Quimbanda.


Táta Nganga Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro


NOTAS: [1] Leia-se Tradição Oculta Ocidental. [2] Veja os ensaios da Revista Nganga para uma contextualização do tema. [3] Nathália Fernandes. Legitimação e Construção da Identidade Brasileira. Em Leal de Souza. O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda. Aruanda, 2019.

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