Reinos de Quimbanda

Atualizado: 6 de jul. de 2021



Intróito: Esse texto é uma seleção de inúmeras postagens realizadas em nosso Instagram. Em um primeiro momento falamos de história, isso implicou investigação literária, entrevistas a pessoas que vivem o culto e experiência pessoal. Em um segundo momento discutimos a atropovisão de alguns dos Reinos de Quimbanda, porque é importante alocar o kimbanda (o feiticeiro da Quimbanda brasileira) em seu lugar no cosmos. Os Reinos podem ser associados diretamente à criação e expansão do cosmos e em contra partida, a extensão total da própria consciência. Exu anda por todos os caminhos da Árvore da Vida.[1] Me esforcei por organizar essas postagens sobre os reinos de forma ordenada. Como foram postagens de Instagram é impossível atingir profundidade sobre o tema, o que requer mais tempo e esforço. Mas inseri algumas notas explicativas ao longo do texto, principalmente referências bibliográficas. Eu escrevi um texto anterior acerca dos Sete Reinos de Quimbanda que ficou por um tempo disponível no site Filosofia Oculta e em breve estará em minha próxima obra, também reexaminado.




O conceito de «reinos» na Quimbanda refere-se a zonas de poder ou pontos de força onde se acredita que existe uma grande concentração de energia, as quais se manifestam poderosamente, o que possibilita que os espíritos, os Exus e Pombagiras, também se manifestem com mais força. Existem espíritos que estão definitivamente conectados a determinadas zonas de poder, e há outros que apenas «respondem» nelas, que «comem» (quer dizer, que aceitam oferendas) naquelas áreas mágicas, mas não estão diretamente conectados a elas. E é nestas zonas de poder, portanto, que uma melhor conexão é estabelecida com estes espíritos. Um exemplo: os espíritos do Reino das Almas auxiliam as pessoas/almas que passam pelo processo de transição vida-morte; eles respondem melhor, portanto, onde essa transição ocorre: hospitais, igrejas com capelas funerárias, necrotérios etc.


Na medida em que o Chefe Império Maioral de todos os Infernos aumentou os limites de seu reinado através da obra dos Exus, as Pombagiras e os adeptos da Quimbanda, gradativamente uma classificação de reinos começou a ser estabelecida na tradição literária. Na década de 1950 Aluízio Fontenelle (1913-1952) apresenta dois Reinos e seus respectivos Povos: o Povo das Encruzilhadas e o Povo do Cemitério. Uma conformação inicial de estrutura dos reinos começou a se desenvolver a partir da ideia das Sete Linhas de Quimbanda apresentadas por Lourenço Braga em 1941: Malê (ou Malei), Almas, Cemitério (ou Caveiras), Nàgô, Mossorubi, Caboclos e Mista. Uma tradição literária nunca começa antes de seu corpo religioso.[2] Disso inferimos que se em 1941 Lourenço Braga conformou essa estrutura de Linhas, é porque elas já eram estabelecidas nos terreiros e choupanas há muito tempo. Seja como for, não se sabe quando a partir da década de 1970, nem como ou onde, das Sete Linhas de Quimbanda desenvolveu-se a estrutura hermética dos Sete Reinos da Quimbanda.[3]


Essa estrutura de Sete Reinos e Sete Povos respectivamente se alinha ao arcano do septenário hermético, ficando assim: Encruzilhadas, Cruzeiros, Almas, Matas, Cemitérios, Lira e Praia. De acordo com a casa ou tradição literária, cada um dos Sete Reinos comporta sete, nove ou mais Povos/Falanges. Não existe um consenso e assim como ocorreu na Umbanda – por conta da universalidade da cultura banto e que culminou em que cada casa/tradição conformou seu sistema e métodos – as choupanas de Quimbanda, suas famílias (ou tradições) têm estruturado sistemas ligeiramente diferentes, mas inteiramente convergentes.[4] Um exemplo é a Quimbanda Mossorubi que divide os Reinos em: Encruzilhadas, Almas, Lira, Água, Terra, Matas, Trevas, Oriente, Africanos. Como sempre defendo, a cultura é um espírito vivo que se movimenta; muitas tradições afro-brasileiras e descendentes diretas destas se alimentam umas das outras: a força que na Quimbanda Mossorubi se manifesta como um reino completo com seus diversos povos, como é o caso do Reino das Trevas, na Quimbanda Nàgô se manifesta como um Povo dentro do Reino da Lira (em algumas casas dentro do Reino das Encruzilhadas), quer dizer, o Povo das Trevas.


E muito embora haja essa divisão energética e vibracional entre os reinos organizada de acordo com o septenário hermético, existe uma confluência vibracional intensa entre alguns reinos e isso é demonstrado nas ações de Exus e Pombagiras híbridos, quer dizer, que respondem em duas ou mais zonas de poder (i.e. reinos). Na Quimbanda Nàgô há uma relação estreita entre o Reino da Lira e o Reino das Encruzilhadas. Por outro lado, há uma relação estreita entre o Reino das Encruzilhadas e o Reino dos Cruzeiros. Eles podem ser compreendidos como «reinos complementares», um sendo a extensão do outro. Se a Encruzilhada é o ponto de partida, por isso é o primeiro reino, então o Cruzeiro é o caminho, por isso apresentado como o segundo reino na classificação septenária.


Diferente da tradição Mossorubi que opera com Nove Reinos, a Quimbanda Nàgô opera com Sete Reinos. Para um adepto que trabalha nessas duas tradições (Nàgô e Mossorubi), por exemplo, quatro Reinos da Quimbanda Mossorubi (Terra, Águas, Matas e Africano) e seus respectivos espíritos respondem todos dentro de apenas um dos Reinos da Quimbanda Nàgô, me refiro ao Reino das Matas. Da mesma maneira, todas as tradições das Sete Linhas respondem umas dentro das outras; a Linha dos Caboclos Quimbandeiros responde dentro do Reino das Matas na Quimbanda Nàgô e dentro dos Reinos Africano e das Matas na Quimbanda Mossorubi; da mesma maneira, as Linhas dos Caveiras e das Almas respondem dentro do Reino dos Cemitérios. Essa análise e descrição reflete o imaginário de um kimbanda nàgô, que pode convergir em seus ritos às práticas de outras linhas, quando passa a ser denominada «linha cruzada». Essa interação e confluência entre as Sete Linhas parece ter dado a ignição para o desenvolvimento hermético dos Sete Reinos, notada herança «cabulista».[5]


No caminho de desenvolvimento e consistência do imaginário, cosmovisão e sistema mágico da Quimbanda baseado na cabalá septenária hermética, a intensa miscigenação cultural e influxo mágico das tradições que alicerçam a Quimbanda foram fundamentais na conformação dos Reinos. O Reino das Encruzilhadas é uma herança de òrìṣà Èṣú e de seu papel como Senhor dos Caminhos na cultura tradicional yorùbá; como este foi o primeiro Reino, a tradição diz que dele diretamente nasceu a Kimbanda Malê (ou Malei) e os espíritos que a compõem passaram a ser considerados «o alto comando do Povo de Exu» e por isso entende-se que essa Linha seja a cúpula de espíritos que regem e comandam os Reinos de Exu. O Reino dos Cemitérios desenvolveu-se a partir da confluência mágico-cultural entre as crenças religiosas do povo banto e o kardecismo; a prática tradicional católica de devoção às almas abençoadas do purgatório nas segundas-feiras inspirou a conformação do Reino das Almas a partir de reminiscências da Cabula, culto banto que convergiu malês, católicos e kardecistas. O termo «táta» na Quimbanda (e Umbanda) vem dessa convergência espiritual da Linha das Almas; aliás é correto dizer que as Sete Linhas de Quimbanda vêm diretamente da Cabula.


Falando sobre as influências mágico-culturais na conformação dos Reinos da Quimbanda, é interessante notar aqui – e não deixar de significar sua importância – a ação do Espírito de O Livro de São Cipriano na formação da Quimbanda.


O catolicismo romano considera que as almas do purgatório são espíritos lamentosos que precisam de ajuda, negando a possibilidade de que elas tenham algum poder para ajudar a legião dos vivos. A corrente mágica transmitida pelo O Livro de São Cipriano aportou em nossa terra junto aos portugueses, o catolicismo e as bruxas ibéricas condenadas exiladas. O Livro de São Cipriano resgata um pensamento mágico do Mundo Antigo, de que os mortos podem ser convocados a se levantarem de suas sepulturas velhas para auxiliarem os vivos em suas demandas da vida. Na Antiguidade Clássica era o papel do «gōes» (feiticeiro) convocar através de lamentações fúnebres (goécia/goetia) os «nekydaímōn», i.e. os mortos sem descanso.[6]


Quando eu menciono que toda Quimbanda é cipriânica, quero dizer com isso que a corrente mágica-faustina transmitida pelo O Livro de São Cipriano foi fundamental no estabelecimento de muitos fundamentos práticos presentes na Quimbanda – de todas as linhas. Um dos fundamentos práticos de influência cipriânica na Quimbanda (e Umbanda) é o trabalho mágico, místico e religioso com a Linha/Reino das Almas; outro, por exemplo, é a especialidade da Quimbanda Nàgô, o envultamento de fetiches e testemunhos (técnica muito conhecida no Vodu), uma prática presente na feitiçaria do Mundo Antigo greco-romano que foi preservada nas edições de O Livro de São Cipriano.[7]


Então é possível ver uma evolução com o passar do tempo nos conceitos acerca dos Reinos da Quimbanda, concluindo que o desenvolvimento deles começou com a ideia das Linhas para depois incluí-las dentro dos Reinos e Povos de Exu e Pombagira.


A Quimbanda é filha da Pequena África, uma comunidade de escravos alforriados ou fugitivos remanescentes dos períodos colonial/imperial de várias etnias africanas, negros cristianizados, islamizados hermeticamente treinados etc. e um antro de capoeiras, cafajestes, prostitutas e pivetes na região portuária do Rio de Janeiro que buscavam e encontravam identidade e acolhimento cultural, local que se tornou o berço do samba, intimamente associado às casas de Macumba e de Candomblé no início do Séc. XIX. Foi na Pequena África que a «colcha de retalhos» da Quimbanda começou a ser costurada devida intensa descarga de energia e intercâmbio cultural, atuando como um «ponto de força» catalisador para conformação dos Reinos de Exu. A Pequena África como zona de poder, com bares, hotéis, bordeis, tráfico de drogas, comércios de todo tipo, centros e casas de religião, peregrinações e visitas turísticas etc., tudo isso com encruzilhadas, enseada, mata, cruzeiros, igrejas e cemitérios, movimentos energéticos de causas naturais e humanas, deu início a conformação da Quimbanda como a conhecemos, como se romanticamente a Quimbanda fosse filha da «Casa da Lira».


Lira é o nome dado a um dos Reinos da Quimbanda, assim nomeado em função do instrumento mágico-musical criado pelo deus Hermes de mesmo nome e que nos cultos órficos da Grécia Antiga esteve associado a Orfeu que, inconformado com a morte de sua esposa desceu ao Submundo e com sua voz e o som da lira que carregava encantou todo o mundo ctônico: a Roda de Exíon parou de girar, as pedreiras de Sísifo deixaram de oscilar, Tântalo se esqueceu completamente da fome e da sede, as Danaides descansaram de seu trabalho eterno e até Hades adormeceu. Após incansável obstinação em romper as trevas do Submundo em direção à luz, Orfeu retornou do mundo dos mortos. Esse é um mito com muitas camadas. A catábase de Orfeu é àquela mesma tradicional do xamanismo: o iniciado morre na contemplação do além sobrenatural e «encontrando-se», torna-se detentor do mistério. De posse do arcano, ele é transmitido a outros que, levantando-se das sombras para clareza da vida, preparam-se para imortalidade da alma.


Orfeu foi músico, poeta, profeta e o inventor da teologia pagã. Com sua lira ele encantava pássaros, feras e homens, colocando-os a dançar em êxtase ou acalmando-os em sono dopaminérgico. Celebrado iniciado nos mistérios, um Herói do mundo grego antigo, ele educava bestas selvagens a tornarem-se homens civilizados, levantando espíritos caídos e obscurecidos (ignorância espiritual) a se tornarem indivíduos luminares (clareza espiritual) no intuito de vencerem a obscuridade e de alcançarem a «imortalidade». É lá, entre os «Imortais» nos Campos Elísios, que Orfeu espera ao som de sua lira os adeptos de seu culto. Compreender Orfeu, o orfismo e os cultos dionisíacos é o melhor caminho para começar a se compreender o Reino da Lia.


O orfismo foi um conjunto de tecnologias espirituais que envolviam a dança e celebração da música, da poesia e da literatura como mecanismos de transe, êxtase, catarse e gnose que, embora alimentado por influências dionisíacas, pitagóricas e apolíneas, contrasta todas elas, porque as celebrações órficas tinham objetivos soteriológicos apenas, a busca pela transcendência das trevas em luz; por esse motivo Orfeu foi instruído a não olhar para trás quando caminhava para fora do Submundo. O «não olhar para trás» é o desapego que a alma deve ter em relação à escuridão e ignorância, despertando para luz. (Leve este conhecimento para seus despachos!) Homens que celebravam os mistérios órficos eram convidados a entrarem sem armas, quer dizer, vazios completamente do apego a transitoriedade do corpo e a experiência da corporificação para serem totalmente preenchidos pelos «encantos líricos inebriantes». Essa é a «fórmula mágica» do Reino da Lira, a festa, a dança, o canto e o frenesi para transcendência do profano e a admissão ao reino do sagrado. É isso que encontramos em uma gira de Quimbanda, o sabbath e as núpcias com o Canhoto! O Reino da Lira na Quimbanda, como o nome aponta, é órfico e ele o herda pelos arcanos mágicos que preserva através das ações dos Exus e Pombagiras da Lira.


O Reino da Lira é um dos Reinos mais surpreendentemente intrigantes. Ele poderia ser comparado a Opus do Atu XV, o Diabo do Tarot e a imagem do Bode de Mentes, o trabalho do Homem Negro do Sabbath. O Povo – Linha ou Reino dependendo da tradição – das Trevas está diretamente associado ao Reino da Lira, como seu aspecto sombrio e vampírico, representando a bestialidade desenfreada, a ignorância soberba de si mesma, o homem perdido em vícios diversos, drogas, sexo, álcool e diversões de todos os tipos. É por isso que na Quimbanda Lúcifer conecta-se diretamente ao Reino da Lira.


Na Quimbanda Mossorubi o arcano luciférico da vitória sobre a ignorância espiritual é representado no sincretismo entre Lúcifer e Exu Rei da Lira (vulgarmente conhecido como Sr. Sete da Lira), porque Lúcifer é a Luz que brilha na escuridão, a Chama Negra que crepita nas Trevas; a força logoidal que impulsiona a evolução humana, o Portador da Luz. É interessante salientar nesse ponto que as origens do Reino da Lira encontram-se na necessidade humana de evolução. Quando a consciência do homem desenvolveu-se ao ponto de filosofar e se civilizar, compor poemas, literaturas e magníficas obras de arte, enfim, «criar» (ação logoidal), nasceu o Reino da Lira. A mente e a natureza humana tateiam as escuras em dicotomia, pois junto ao impulso luciférico de busca pela sabedoria, em igual medida existe a busca desenfreada pelo cativeiro e escravidão dos sentidos apegados aos prazeres, vícios e impulsos desmedidos (ignorância), forças representadas pelo Reino das Trevas. Não vê aqui o Atu XV do Tarot, o Diabo? Sr. Sete da Lira na Quimbanda traz essa força da busca órfica pela luz, que é a conquista da sabedoria sobre a ignorância. Esse sincretismo ocorreu porque o Sr. Sete da Lira governa o Reino da Lira, cujas emanações luciféricas são contínuas. Sua força ígnea é terrivelmente visceral e ela se opõe a estagnação, a constrição, a escravidão e a servidão, sejam culturais, sociais, religiosas e interpessoais. A fórmula mágica do Reino da Lira é o retorno da obscuridade a luz pelo poder do êxtase, da gnose e da catarse.


Nesse ponto podemos voltar a Pequena África, o antro de capoeiras, cafajestes, pivetes e prostitutas que inspirou o Reino da Lira e a famosa Falange dos Malandros.[8]


Os livros da tradição literária da Quimbanda no Brasil costumam mencionar a cidade de Lira no norte de Uganda na África como uma inspiração para o Reino da Lira na Quimbanda, uma vez que a cidade foi no passado e ainda é hoje um importante centro comercial. Como vimos anteriormente a Quimbanda como culto dos mortos envolve a estrutura da sociedade; por extensão seu trabalho mágico opera sobre essa engrenagem: o mundo das almas encarnadas e a relação que elas estabelecem com a Natureza, consigo mesmas e com seus pares. Vimos também que o Reino da Lira está diretamente conectado a necessidade humana de evolução, socialização, comunicação, expressão e fundamentalmente, harmonia e equilíbrio entre as partes, em conexão às virtudes ígneas solares que harmonizam a operação dos seis planetas herméticos: Terra, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte e Júpiter, o Sol sendo o sétimo. E finalmente vimos que o nome dado ao Reino da Lira é de inspiração órfica e envolve os mistérios do êxtase através da música, da dança e da arte, por esse motivo alguns o chamam de «Reino do Candomblé».


Mas a inspiração para conformação do Reino da Lira como o conhecemos hoje na Quimbanda está muito próxima de nós: a cultura que se desenvolveu na Pequena África na região portuária do Rio de Janeiro, local onde se aglomeravam africanos de muitas etnias e onde se estabeleceu muitos negócios: bares, hotéis, cabarés, casas de apostas, tráfico de drogas, terreiros e casas de religião, comércios de todo tipo etc., somado a muita diversão, regozijo e deleite dos sentidos e prazeres; um antro de boêmios capadócios (capoeiras malandros valentões e brigões) seresteiros, o «povo da lira» como eram chamados. Eles se aglutinavam para cantar, dançar e tocar nas ruas, fazer a segurança de personalidades políticas, prostíbulos, casas de apostas e de religião. Eram também acusados de serem trapaceiros e de cometerem crimes e jogatinas diversas. Com estes capoeiras, malandros cariocas, nasce a inspiração arquetípica do Povo dos Malandros no Reino da Lira nos domínios da Quimbanda.


No meu texto Os Reinos da Quimbanda eu menciono que o Reino das Matas é àquele que mais espelha a natureza do Chefe Império Maioral como útero e fonte dos Sete Reinos e todas as criaturas que apareceram, se desenvolveram e vivem nele, incluindo as duas humanidades, homens e mortos. Se o Reino da Lira está diretamente associado à necessidade humana de evolução, comunicação/interação e harmonia, o Reino das Matas está associado ao processo de evolução de todas as espécies e o desenvolvimento das capacidades e habilidades de sobrevivência e adaptação na Natureza. É o reino da pluralidade das formas e o desenvolvimento delas como espécie através do aprimoramento dos instintos e do homem como indivíduo pensante.


A Makaya é o reino que recebe as almas para a jornada da encarnação e por causa disso está diretamente associada à ancestralidade humana. Por esse motivo o Reino das Matas foi chamado também de «Linha Africana», fazendo referência às almas africanas, espíritos de xamãs e guerreiros que morreram em solo brasileiro. Algumas tradições sustentam que são reinos distintos, o das Matas e o Africano, mas de alguma maneira conectados, porque a Linha Africana não representa apenas a ancestralidade africana, mas a ancestralidade de toda humanidade. Em diversas culturas autóctones espalhadas pelo globo à comunicação com os espíritos ancestrais está associada a rochas e pedreiras, ao movimento dos rios, a brisa dos ventos ou ao sopé de uma árvore.


A Makaya é frondosa, abundante, soberba, gloriosa, gigantesca e cuja virtude é àquela da «expansão» e crescimento contínuo da vida em adaptação ao meio; trata-se de uma força jupteriana tamanha que deixa qualquer admirador estupefato.


Sete vela enterrei

Sete velas eu queimei

Acendi meu caldeirão e

Chamei Pantera Negra para a

Gira do Cramulhão.


Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite



NOTAS: [1] Para um estudioso escutar essa expressão dentro do contexto da Quimbanda deve ser difícil, mas é inevitável: a Quimbanda brasileira é um amálgama de africanismo, brasileirismo e eurocentrismo. Existe hoje um movimento forte de reafricanização na Umbanda e na Quimbanda, combatendo a inserção de elementos europeus nos cultos. Embora isso seja positivo por muitos motivos, fundamentalmente o resgate cultural, o eurocentrismo fez parte da formação destes cultos e não há como fugir dessas raízes europeias. É interessante notar esse movimento cultural: enquanto a Umbanda embranqueceu o feiticeiro negro, alguns kimbandas e «makumbeiros» têm se esforçado por devolver ao negro os seus poderes e autoridade espiritual dentro dos cultos. Não há como fugir da ideia – e fato – de que ouve um embranquecimento deliberado na Umbanda. A maioria dos sacerdotes e chefes de terreiros de Umbanda é branca. Sobre a Árvore da Vida da cabalá hermética, em breve apresentarei um estudo iniciático entre os Reinos da Quimbanda e as sephiroth da Árvore da Vida, incluindo processos fisiológicos e transmutação alquímica. [2] Como expus no texto sobre Exu Gererê presente neste site, as «linhas» de Quimbanda não são «vertentes» de Quimbanda, mas grandes agrupamentos primários de espíritos classificados segundo seus padrões vibratórios (frequência) e que respondem «dentro» das diversas «vertentes» de Quimbanda: Malê (ou Malei), Mussurobi, Nàgô, Almas etc. O que as «vertentes» de Quimbanda oferecem são as «chaves de acesso» a esses agrupamentos de espíritos que com o passar do tempo e instrução espiritual deles mesmos foram organizados em «reinos» e «povos». As «vertentes» são definidas, portanto, pela «maneira» como propõem os fundamentos e as chaves de acesso. [3] Em uma discussão sobre esse tema, um tatá nganga mais antigo da tradição disse que o primeiro livro a conter a conformação septenária dos Sete Reinos foi a obra de Bàbá Osvaldo Omotobàtálá, Reino de Kimbanda. Nessa obra encontramos a seguinte ordem dos Sete Reinos: Encruzilhadas, Cruzeiros, Matas, Cemitérios, Almas, Lira (ou Candomblé) e Praia. Mas o autor diz logo no início do livro que ele se esforçou por compilar o maior número possível de informações para tecer sua construção do sistema, que ele mesmo diz ser uma aproximação a organização da Kimbanda. Há inúmeros erros no livro. O autor diz que o Grimorium Verum, um grimório vernacular salomônico do Séc. XVIII e que foi o manuscrito por trás da sincretização de Exus com demônios, é mais antigo que o descobrimento do Brasil. Para o autor, portanto, seria impossível estabelecer essa equivalência. Bom, se a questão é a crítica quanto a sincretização, há outros argumentos muito melhores. E muito embora ele tenha se esforçado por criar uma cosmogonia em que Exu, por incrível que pareça, tenha sido criado por Nzambi (o Deus Absoluto), a dinâmica cosmogônica dele é muito equivalente a demonologia cipriânica-faustina dos grimórios unida a mesma visão de Fontenelle onde Lúcifer, o Belo, decidiu reinar na obscuridade. Como em Fontenelle, em Omotobàtálá também Exu se rebela e a partir de si cria sete seres inferiores, os Reis dos Sete Reinos, da mesma forma que se estabelece a hierarquia infernal nos grimórios cipriânoco-faustinos. Eu falei desse tema no texto Os Sete Reinos da Quimbanda. [4] A cabalá do número sete, para Sete Reinos e Sete Povos tem sido cogitada como a conformação mais ideal. Mas o Reinado de Maioral tem se estendido e novos Povos e Falanges têm surgido dentro dos Sete Reinos. [5] A Cabula é um culto banto fundado no Espírito Santo, embora autores diversos discordem do local de sua fundação. Algumas famílias de cabulistas tinham adeptos maçons, convergindo muitos símbolos maçônicos utilizados por essas famílias no ritual de Cabula. De igual modo há autores que discordem dessa influência maçônica na Cabula. Seja como for isso foi transmitido de alguma forma a Macumba carioca e depois a Umbanda e Quimbanda. [6] Veja meus textos Quimbanda Teurgia-Goetia e A Herança da Feitiçaria Ibérica na Quimbanda. [7] Eu venho tratando com detalhes sobre ciprianologia, tradição cipriânica-faustina da magia e a influência cipriânica (ibérico-faustina) na Quimbanda em muitos textos em breve revisados disponíveis. [8] Veja Humberto Maggi, Queen of Sevem Crossroads. Hadean Press, 2020.

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