Quimbanda & Tradição Fáustica


Sendo Alquimia & Hermetismo na Quimbanda.


Nota: Eu escrevi esse ensaio em resposta a inúmeras perguntas sobre a influência fáustica na Quimbanda, o sistema de hierarquia infernal como fórmula alquímica e cosmológica, bem como a Trindade do Oposto. Ele lançará uma breve luz sobre o tema, que precisa de mais pesquisa e aprofundamento.



Para um hermetista não é trabalho difícil encontrar hermetismo e alquimia na Quimbanda. Para adeptos que detêm chaves hermético-alquímicas, encontrá-las nos inúmeros processos, fases e ciclos da Quimbanda torna-se um exercício criativo de gnose para vários fundamentos do culto. A Quimbanda desenvolvida modernamente em detrimento de sua gênese no segundo momento do Culto de Exu no Brasil recebe grande influência da tradição fáustica da magia que, assim como a Quimbanda, é contra-sistema. Ambas as tradições são frutos de conflitos espirituais, embates culturais, políticos e religiosos. O espírito da Quimbanda nasceu dentro dos Quilombos, senzalas e favelas na luta de revolta contra o sistema escravocrata de nossa sociedade. O espírito da tradição fáustica nasceu como contra-ataque e resistência ao crescimento e obscurantismo protestante na Alemanha. Causas idênticas, locais separados geograficamente. Seja onde for, o sistema escravocrata imposto pela sociedade cristista produz escravos, os serviçais de sua manutenção. O homem escravizado, alienado de sua realeza espiritual, é um obstáculo ao desenvolvimento pessoal, ao aperfeiçoamento de si mesmo, a busca pela transcendência da alma e a superação dos obstáculos e limites impostos pela natureza. Isso pelo simples fato de não conseguir formular um veículo espiritual apropriado à transcendência, tamanha cegueira.


O caminho do autoconhecimento leva ao rompimento com amarras sociais profundas. Esse é o caminho do manganeumata das sombras, o troll ou trickster, personagens existentes na mitologia e imaginário universais. Sua fórmula mágica sempre é da marginalidade e violação da ordem vigente, do tabu social estabelecido. Dentro de diversas culturas colonizadas, dentro de vários cultos que emulam e labutam pela continuidade do status quo cultural, religioso e social, sempre existiu um elemento de antagonismo e isso, de modo geral, é admirado por inúmeras pessoas. Na Argentina muitos bandidos foram canonizados e se tornaram santos, convocados em inúmeras tradições de feitiçaria. No Velho Testamento Abraão foi um personagem marginal, Moisés inicia sua carreira com um assassinato e o profeta Elias se rebela contra o rei e a rainha que acabou defenestrada pela janela e comida por cães. Na Quimbanda os Exus e Pombagiras foram espíritos revoltados, quilombolas, aborígenes, bruxas, prostitutas ou criminosos que adentraram as linhas de trabalho do Reinado do Chefe Império Maioral, o Diabo.


O caminho do Diabo é aquele atalho por dentro da mata fechada. Você precisa encontrar um diabo pessoal que lhe oriente por essa trilha quase que despercebida pelo olhar de um profano. O caminho do Diabo é o caminho da iniciação e do autoconhecimento, do discernimento lúcido da alma passando pela matéria e do trabalho sobre ela nessa passagem, nesse ciclo, nessa fase. Não se trata de um caminho confortável, porque para se aprofundar nos atalhos da mata escura é preciso lidar com a selvageria que existe dentro dela. É preciso tornar-se um guerreiro, um sobrevivente da natureza, do reino da geração. A fórmula alquímica aqui é àquela do Solve et Coagula, porque é preciso adaptar-se e transformar-se; é preciso destilar toda matéria de sua sujeira, é preciso enegrecer todas as suas partes para que algo novo venha a renascer, algo que conseguiu sobreviver a todo o ciclo. Dentro dessa alquimia, que depende de muitas operações distintas, nasce o guerreiro que adquiriu a maestria da vida e como tal, tornou-se o Rei, de seu reinado. E é interessante notar que esse processo alquímico, por exemplo, ocorre fundamentalmente também dentro da operação mágica do corte propiciatório, porque é a morte que dá vida ao filho mágico ou pedra filosofal da operação. As etapas rituais de um sacrifício propiciatório na Quimbanda contêm todas as operações clássicas da alquimia. Para quem tem olhos para ver, alquimia, teurgia e hermetismo estão encerrados dentro da Quimbanda, o que faz dela uma genuína filha brasileira da tradição hermética de mistérios.


A Quimbanda é um culto de morte; ela louva o espírito da morte por meio de espíritos de mortos. Mas o caminho do Diabo, do pacto com ele, também não é um caminho de morte? A morte de Fausto, aceita popularmente como consequência de seus atos ímpios junto ao Diabo, na verdade é uma alegoria para a transformação do trabalho alquímico Solve et Coagula.


É interessante notar que Lúcifer, o fogo da lucidez, o brilho prístino do olhar sobre a matéria, o impulso de liberdade e a força de rebeldia contra todo o sistema social de produção e manutenção de cativos, é retratado nos grimórios fáusticos em uma imagem espinhosa (veja abaixo). Isso porque seus espinhos machucam e prejudicam profundamente o conjurador que, sem saber, trata-se de um colono catequizado em seus abismos mais profundos. Na Quimbanda nós dizemos que um kimbanda deve suportar o peso da Coroa dos Maiorais. Lúcifer é a joia da coroa, a Sabedoria, àquela chama negra que iluminará a ignorância abissal do adepto. E quantos kimbandas – tamanha cegueira – não têm tombado pelos caminhos espinhosos de Lúcifer? Lúcifer é o agitador, por isso ele tido como espírito infernal perigoso na magia fáustica. A grande maioria das pessoas não está preparada para enfrentar uma rebelião no interior de si mesmas; essa força ígnea luciférica acaba por gerar nos cegos que tateiam no escuro uma força antagônica proporcional, o que leva a derradeira derrocada da jornada espiritual.



A chave para compreensão das três forças Maiorais da Quimbanda, a Corte Infernal, Trindade do Oposto ou hierarquia demoníaca, reside na luz negra ou chama luciférica crepitante do autoconhecimento. Na Quimbanda o Exu tutelar é o transportador dessa chama ígnea luciférica que ilumina o caminho mata adentro. Isso faz do kimbanda um homem de conhecimento, um adepto da sabedoria que comeu o fruto conferido pela serpente e despertou para natureza do Diabo. O sacramento ingerido é responsável por acender uma chama interior dentro dele, levando-o gradualmente ao despertar e revolução luciférica. A força espinhosa de Lúcifer é àquela do romper com as limitações do potencial espiritual, limitações essas muitas vezes impostas por nós mesmos para nossa própria proteção ou preservação. Para que esse rompimento ocorra é necessária uma força de muito poder: Lúcifer, o portador da luz primordial.


A imagem do sigilo de Beelzebuth, interessante notar, tem uma fórmula fálica (veja abaixo). Isso significa que Beelzebuth na hierarquia infernal trata-se de um princípio alquímico ativo, o sagrado masculino, um impulso de renovação saturnina, quer dizer, que se inicia com a morte/restrição. Beelzebuth foi uma divindade adorada no Levante no verão, período marcado por infestações de moscas, daí Senhor das Moscas. As moscas representam um estado alquímico de morte e putrefação.



Por outro lado, Ashtaroth é representado com um sigilo aberto (veja abaixo), significando que seu papel na hierarquia infernal é passivo, o sagrado feminino. A deusa Astarte que mais tarde se tornaria Astaroth, estava muito próxima da deusa Asherá no Levante, como uma deus fértil, representando a matéria ou organismo vivo, quer dizer, a fonte ou útero que provê frutos.



Temos aqui nessa trindade, Lúcifer, Beelzebuth e Ashtaroth uma fórmula mágico-alquímica de criação primordial.[1] Lúcifer – o portador da luz, a quintessência do despertar espiritual, o fogo logoidal luciférico, o impulso diabólico de transcendência, o espinhoso – é uma luz primordial que se refrata através de duas forças, masculina (ativa/morte/putrefação) e feminina (passiva/criativa/fértil). Então inferimos que alquimicamente, primeiro essa luz tem de morrer e entrar em decomposição, o que produz moscas, para que a força feminina então possa dar-lhe uma nova vida. Assim, a força dos três Maiorais opera como uma fórmula de renascimento através da morte; trata-se de um trabalho de alquimia. Volte na operação mágica do sacrifício: o fruto só é colhido a partir da vida que vem da morte. Essa fórmula alquímica está presente em absolutamente tudo na Quimbanda, desde a iniciação, a consagração como sacerdote e o aprontamento como mestre; nas técnicas de feitiçaria e nas venerações propiciatórias. O casamento místico não ocorre em uma cama nupcial, mas dentro de um túmulo. Ele passa pelo portal da morte. Essa é uma fórmula necromântico-alquímica universal, presente em todas as culturas que veneram a morte.


O símbolo dessa fórmula alquímica dos Maiorais é a iconografia de Baphomet, onde ela é esboçada em perfeito equilíbrio. Esse equilíbrio é mantido dentro dos Reinos da Quimbanda pela atuação do Diabo, o Maioral dos Infernos que irradia sua luz através da atuação de Exu e Pombagira.


Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite


NOTA: [1] Na Árvore da Vida: Lúcifer (Daath) provê a força que se manifesta, Beelzebuth (Chokmah) e Ashtaroth (Binah).

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