Quimbanda sem Iniciação



É uma pergunta frequente nas consultas sobre linha de iniciação e confirmação de ancestralidade: é possível praticar a Quimbanda ainda não sendo um iniciado? Vamos convocar o bom senso: Quimbanda é uma tradição e qualquer tradição envolve iniciação para acesso aos seus mistérios e segredos. Alguns dizem que Quimbanda é a relação construída entre adepto e o ancestral, Exu ou Pombagira. Outros insistem que Quimbanda é um termo genérico para gira de Exu, qualquer gira, na Umbanda, no Candomblé etc. E existem também àqueles que dizem ser a Quimbanda uma parte do ritual ou a esquerda da Umbanda. Essas alegações só devem ser aceitas como estritamente corretas, todas elas, no contexto religioso em que elas são aplicadas, e não fora dele. Isso significa que não é possível afirmar generalidades sobre as diversas vertentes de Quimbanda, porque elas não são homogenias. Assim como seu ícone central, o Chefe Império Maioral, o Diabo só pode ser compreendido em termos de legião, também a Quimbanda é legião. O segredo, o acesso, ocorre portanto vinculando-se a uma família. Em nossa família a Quimbanda é i. tradição e ii. exercício pessoal de feitiçaria e espiritualidade.


Como a tradição moderna que conhecemos hoje: i. a Quimbanda surge como uma resposta, uma contra-reforma ao embranquecimento da Umbanda (e sociedade), uma resistência quilombola ao sequestro e desaparecimento da identidade negra, o último posto avançado de resistência negra, fetichista, animista, aborígene, selvagem, arcaica e tribal; ii. para tal a Quimbanda desenvolveu um intricado sistema de magia operacional completamente independente dos cosmos das tradições que influenciaram seu nascimento, organizando uma estrutura de Reinos e Povos a partir das linhas de trabalho tradicionais e o acesso a elas através de uma ordenação iniciática transmitida de lábios a ouvidos dentro de uma relação discipular, preservando a maneira congo-angolana de exercício de espiritualidade e magia; iii. as chaves de acesso de uma tradição somente são conferidas aos adeptos iniciados do culto, que passaram pelos portais através da cerimônia de iniciação.


Como exercício pessoal de feitiçaria e espiritualidade, a Quimbanda se desenvolve dentro da relação estabelecida entre o adepto e seu Exu tutelar. Mas isso só é possível de ocorrer na tradição de Quimbanda quando o mestre confere ao discípulo as chaves de acesso através das quais ele iniciará a conexão com seu Exu tutelar. Isso está em perfeita sincronia com uma fórmula mágica universal, o conhecimento e conversação com o espírito tutelar. Há vinte anos eu venho me debruçando sobre essa fórmula mágica, buscando sua presença em diversas tradições espalhadas pelo globo. A estrutura iniciática da Quimbanda está em harmonia total com essa fórmula mágica que, em termos universais, se desenvolve assim:


1. O buscador inicia sua jornada procurando por ordens mágicas, livros, iniciações em tradições ocultas e tradicionais, cursos e matérias diversas que enriquecem seu conhecimento da arte dos sábios, até que encontra, finalmente, um tutor espiritual, um mestre.


2. Ao encontrar o mestre e possuindo conhecimento para compreender a profundidade da gnose lhe transmitida, a ele são conferidas as chaves para se conectar ao espírito familiar. É um período onde o adepto, agora já em contato com seu espírito tutelar e instruído pelo mestre, se aprofunda na magia que se desenvolve dentro dessa conexão espiritual.


3. Preparado, o adepto inicia sua carreira sacerdotal oferecendo seus serviços mágicos, auxiliado pelo espírito tutelar.


4. Quando o adepto torna-se um mestre, a ele é conferida a autoridade espiritual para receber discípulos e treiná-los na arte, dando continuidade a tradição a que pertence.


Esses quatro passos são universais e podem ser encontrados em muitas tradições que nasceram da diáspora africana. O espírito tutelar é sempre uma criatura espiritual, um ancestral, um diabo ou daimon pessoal, um anjo ou òrìṣà etc., dependendo da tradição. Eu falei sobre esse tema na primeira edição do Daemonium.


Todo exercício de fé é bonito, íntegro e deve ser encorajado. Nós encorajamos a todos àqueles que não são iniciados ainda na Quimbanda, que se aproximem de seus Exus tutelares através de mecanismos diversos como firmezas em velas, estátuas, pontos riscados etc., tudo que está no universo umbandista. Tem um texto interessante de um iniciado de nossa família, o sacerdote Zelawapanzo, que esclarece algumas questões sobre o trabalho com Exu através do ponto riscado sem a necessidade de iniciação ou trabalho mediúnico de incorporação. Mas a Quimbanda é técnica e como tal, não necessita do ancoradouro da fé. A Quimbanda oferece uma tecnologia espiritual que vai para muito além do nível das firmezas, porque ela promove uma conexão profundamente visceral entre o Exu e seu adepto.


Considerando isso tudo, fica muito claro que não é possível praticar Quimbanda sem iniciação.


Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite

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