Quimbanda & Magia Cerimonial



Iniciamos a construção dos próximos ensaios a serem publicados na Revista Nganga, como continuação dos estudos sobre a incursão diabólica no Brasil a partir do desenvolvimento da estrutura de culto da Quimbanda em seu segundo momento, a partir da década de 1950, onde a demonologia e diabologia dos grimórios de evocação mágico-demoníaca da Europa medieval e moderna se associaram ao Culto de Exu.

Estes ensaios para as próximas edições da revista se debruçam sobre a história da magia no medievo com foco na tradição dos grimórios. A intenção desta imersão histórica é buscar uma compreensão mais profunda de como a demonologia e diabologia dos grimórios, e portanto a influencia da magia cerimonial ou magia ritual como também é chamada, chegou até a Quimbanda.


Nas edições anteriores da Revista Nganga nos preocupamos em sintetizar de forma coerente as influências fundantes da Quimbanda e sua evolução nos dois momentos do Culto de Exu no Brasil. Os próximos ensaios irão buscar encerrar essa síntese de estudo sobre a forma como a Quimbanda se desenvolveu, objetivando as influencias que recebeu da magia africana, europeia e ameríndia.


Duas questões que envolvem os estudos profundos de Quimbanda como tradição são: i. qual o grau de influencia da magia cerimonial sobre a Quimbanda?; ii. Quimbanda é religião ou magia? Sobre a primeira questão, com base na avaliação comparativa entre elementos rituais (símbolos e ferramentas mágicas) e métodos de operação, inúmeras equivalências são inferidas. Vou destacar algumas abaixo:


Na magia cerimonial evocativa o magista convoca[1] a presença de um espírito tutelar que tanto é a fonte por trás de seus poderes quanto o meio pelo qual ele acessa as outras criaturas espirituais da Natureza ou reino da geração. A exemplo disso veja o livro que inaugura a tradição salomônica: O Testamento de Salomão. Na Quimbanda, de igual modo, o kimbanda convoca a presença de seu Exu tutelar. Através do poder de seu Exu o kimbanda opera sua feitiçaria como o feitio de amuletos diversos, pós e porções mágicas etc. E é através de seu Exu tutelar que o kimbanda tem acesso a todos os Povos de Exu e Pombagira. É interessante notar que o espírito tutelar no contexto da feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos como demonstrei anteriormente,[2] têm a função de auxiliar a deificação da alma do feiticeiro. De igual modo o kimbanda é auxiliado pelo Exu tutelar a deificar a sua alma.


Aparatos mágicos diversos são utilizados na magia cerimonial: livros mágicos, anéis de poder, vestimentas cerimoniais, espadas, adagas, baquetas e pantáculos etc. Todo esse material é desperto, ativado e consagrado na intenção de manipular e dirigir a força mágica. A Quimbanda opera da mesma maneira: o kimbanda também utiliza anéis mágicos que representam o domínio de seu Exu tutelar sobre o diabo pessoal, quer dizer, o demônio que trabalha para o kimbanda através do poder do Exu. Regalias cerimoniais como a capa, a faca e o chapéu representam a autoridade mágica do Exu tutelar sobre as forças da Natureza e através delas ele é hábil em manipular e projetar a força mágica.


São tantas as equivalências dentro das devidas proporções, e podemos dizer é tamanha a influência da magia cerimonial na Quimbanda, que um tomo inteiro poderia ser escrito para demonstrar isso com riqueza de detalhes, o que não é possível nesse opúsculo de meditação.


Sobre a segunda questão, em que pese à diferença entre magia e religião no âmbito da Quimbanda, recentemente vi um vídeo de Mário Filho no You Tube onde ele fala de maneira bem reducionista e cartesiana, convocando a influência de Marcel Mauss e Émile Durkheim, que a ilegalidade sempre foi uma característica universal magia. Bom, quem tem boca fala o que quer não é mesmo? Essa é uma opinião bastante equivocada porque no que tange a diferença entre magia e religião, tudo depende da cultura e do tempo no curso da história. No Egito por exemplo, a magia era sancionada pelo estado (no caso, império), e apenas atos de magia contra o faraó e sua família eram passíveis de punição. Na Babilônia, Grécia e Roma antigas, apenas a malefica e condutas mágicas antissociais como a produção de venenos, o roubo ou deslocamento de cadáveres para necromancia, eram casos de punição.[3] Foi somente nos Sécs. XVI e XVII que as autoridades clericais da Europa usaram a autoridade dos tribunais civis para perseguir e punir os praticantes de bruxaria.[4] Então a diferença entre magia, sua legalidade e a religião, de modo geral, é limitada no âmbito do tempo e cultura, não uma diferença básica e universal.[5] Esse é um critério bem limitado na enumeração das diferenças entre elas, que podem ser:


A religião monoteísta lida com Deus; a religião politeísta lida com deuses e deusas; a magia lida com todo tipo de criatura espiritual. Universalmente a magia se trata da comunicação e o envolvimento de entidades não-físicas. Os efeitos da magia são conquistados pelo ofício proficiente dessas entidades não-físicas, que podem ser anjos, demônios, espíritos dos mortos etc. Quer dizer, a magia depende da intercessão bem-sucedida do que John Dee nomeia como criaturas espirituais em seus diários. O interessante dessa classificação feita por John Dee é que ela não envolve missivas morais de espécie alguma na distinção dos incontáveis espíritos que fazem sua morada na região sub-lunar, sejam eles ctônicos, telúricos ou aéreos, e que estão fora – ou além – da percepção física. E é interessante que John Dee relata em seus diários que muito embora ele tentasse invocar apenas anjos, muitas vezes aparecia um espírito enganador, e de nada adiantavam as orações e precauções mágicas que ele tomava. Essa classificação de John Dee, e que já adotei inúmeras vezes em meus escritos, é pragmática, porque ela inclui anjos, demônios, ninfas, espíritos de mortos, genni loci etc. O termo espiritual antagoniza, portanto, o reino físico, evitando qualquer missiva moral que envolva a distinção dessas criaturas espirituais.


Simplificando, a religião lidará com Deus, Deuses ou Deusas, na forma de simples imprecação, quer dizer, petições solenes na forma de preces ou na intercessão de um sacerdote para cumprir requerimentos de alguma divindade. É muito difícil um sacerdote religioso ultrapassar a linha tênue da coerção de alguma criatura espiritual, como é o caso dos exorcismos na Igreja Católica. A magia, diferente da religião, utiliza de métodos coercitivos abundantemente.


As configurações da prática religiosa tradicional são distintas dos rituais de magia. Por exemplo: raramente você irá ver um mago executando um ritual de magia (que não seja dramático e sim eficientemente mágico) dentro de um templo religioso. De igual modo, raramente você verá um padre católico realizando a missa dominical aos pés de uma figueira. As exceções existem em todo caso, mas não passam de exceções e não configuram padrões. O padrão é que na religião o rito central é dramático, porque encena um mito, e é executado dentro de um templo, na presença da comunidade. Ele irá reforçar, como citei na apostila do Curso do Oráculo das Sete Linhas de Umbanda e Quimbanda, os valores da cultura:


Através do ritual, portanto, um homem ou um coletivo de pessoas fazem afirmações e empreendem ações ritualizadas que, embora inicialmente possam ser metafóricas, afetam as ações não ritualizadas da vida secular. Os símbolos do ritual expressam uma linguagem de valores que é internalizada emocionalmente, tornando-se mais poderosa do que especulações racionais, o que define e programa as ações no mundo em um nível profundamente intuitivo. Através do ritual estes símbolos são projetados e reforçados na psique dos participantes, reforçando os valores socioculturais.


A magia moderna definiu essa mecânica como ritual dramático. Considerados magicamente estéreis, os rituais damáticos não têm o poder de transformar a realidade material, mas de recodificar a estrutura da alma, que passará a imprimir no mundo, através das ações seculares, os valores expressados simbolicamente pelos ritos. Exemplos de rituais dramáticos nos dias de hoje são as cerimônias ritualísticas de ordens maçônicas, para-maçônicas e a Missa da Igreja Católica.


O padrão de um ritual mágico é distinto. Os magistas preferem locais ermos sem a presença de um conjunto de pessoas, não apenas para evitar que suas práticas sejam descobertas, mas porque também as diversas criaturas espirituais, como os animais selvagens das matas, fogem da presença humana. Enquanto a magia é praticada em diversas zonas de poder mágico, a religião é praticada nos grandes centros e dentro de estruturas como templos e igrejas.


No contexto da magia cerimonial evocativa que exerceu profunda influência sobre a Quimbanda, a configuração padrão é o uso de palavras, objetos mágicos e fórmulas cuja finalidade é coagir um demônio, e o método consiste na construção de inúmeras salvaguardas mágicas entre o mago e o demônio, porque o contato com ele implica hostilidade. Como dissertei nas edições anteriores da Revista Nganga, os grimórios mágicos modernos diminuem essa hostilidade resgatando práticas antigas de feitiçaria, as mesmas que possuímos na Quimbanda como oferendas e sacrifícios de sangue, para amenizar a conexão e a comunicação com estas criaturas espirituais. E foram essa geração de grimórios, que revisaram os métodos-padrões tradicionais da magia salomônica, especificamente o Grimorium Verum, que impactou os métodos da Quimbanda.


E para finalizar, no que tange a diferença entre magia e religião na Quimbanda, pela análise é sóbrio definir que a Quimbanda é tanto magia quanto religião, dependendo do contexto e da casa como é praticada. Como religião a Quimbanda oferece um Norte espiritual de deificação da alma e cumpre requisitos cerimoniais públicos, incluindo sacramentos como casamento e batismo. Como magia a Quimbanda utiliza uma gama de instrumentos, fundamentos e símbolos para manipular e conduzir criaturas espirituais e forças mágicas através do Exu tutelar.


Táta Nganga Kamuxinzela

Mestre de Quimbanda Nàgô e Quimbanda Mussurumin

Cova de Cipriano Feiticeiro


NOTAS: [1] Existem dois meios tradicionais de operação magística na magia cerimonial: invocação e evocação. Invocações são dirigidas a deuses, anjos e arcanjos para i. enriquecimento da alma, ii. realização de alguma compulsão da alma animal. Evocações, da raiz evoco que significa chamar alguém a se apresentar, são chamados, adjurações, conjurações e convocações de demônios ou espíritos dos mortos de maneira ríspida e hostil para muitos fins, como lançar-se em guerra contra o inimigo. [2] Veja o suplemento de estudo disponível no site: Os Papiros Mágicos Gregos & a Macumba Brasileira. [3] Veja Revista Nganga No. 5 para um estudo acerca da magia como contravenção na Roma pré e pós-criastianismo. [4] E isso teve um impacto profundo na atuação das Pombagiras na Quimbanda. [5] Sobre esse tema, Wouter J. Hanegraaff em Dictionary of Gnosis & Western Esotericism (Brill, 2006), diz: Assim, a suposição geral grega e romana era que a magia se originou com os persas. Essa visão é tão antiga quanto a percepção da «magia» como algo diferente de outras atividades cultuais; ambos remontam ao final do Séc. VI a.C. A visão alternativa sustentada por Píndaro na quarta Ode a Pítia (a. 462 a.C.) já era datada naquela época e nunca se tornou popular: segundo sua narração, Afrodite ensinou magia erótica a Jasão para seduzir Medeia. Nesse relato mítico, então, a magia (erótica) é entendida como uma técnica cultural que pode ser ensinada, como a agricultura ou a escrita.



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