Oráculo na Quimbanda



Intróito: Este texto foi publicado no site Filosofia Oculta no dia 13/11/2020 em resposta as estapafúrdias ideias levantadas de que na Quimbanda não se emprega oráculo de cartas, de nenhum tipo. O texto demonstra que essas bravatas não têm sentido algum dentro da genuína e boa Quimbanda de tradição fidedigna. O Artigo foi corrigido para presente leitura.



O tema oráculos sempre foi uma das minhas maiores paixões desde muito jovem em meus estudos de religião comparada, cultos e tradições de mistérios pelo mundo, pelo simples fato de que oracular é uma arte de divinação, quer dizer, um momento especial em que a alma é inundada pelas virtudes dos deuses. Eu estudo e prático a arte oracular há pelo menos trinta anos, primeiro com o Tarot e neste momento de minha vida, a cabalá de Exu, um oráculo de búzios na Quimbanda Nàgô. Então decidi tecer algumas palavras reflexivas acerca do uso do oráculo na Quimbanda após escutar certos dogmas esbravejados por bocas insanas, dogmas como: i. oráculo de Quimbanda é só búzios; ii.oráculo de Quimbanda é só nkumbu (ossos). Essas bravatas não passam de especulações superficiais, dogmas criados por delirantes e que não representam a realidade das casas, templos ou terreiros de Quimbanda. Abaixo seguem alguns pontos de ponderação para refletirmos sobre o tema:


O Dogma na Quimbanda


A tradição de Quimbanda nasceu e cresceu como uma força de resistência a cultura religiosa escravocrata dominante. No primeiro momento do Culto de Exu no Brasil, durante o período colonial, dentro do Quilombo e senzalas; no segundo momento, na era pós-moderna, a resistência eclodiu dentro das casas de Macumba no Rio de Janeiro, o que resultou na Quimbanda como a conhecemos hoje.


Como uma força de resistência, a sistematização da Quimbanda evitou a criação de dogmas religiosos e morais, se esquivando de castrações psíquicas e espirituais. Quando um dogma é criado dentro da Quimbanda, quando é Quimbanda de verdade, ele é logo destruído pela força natural de nossa arte e ciência, porque a Quimbanda é tanto quebra-dogma quanto contra-dogma. Como uma força de resistência, a luta da Quimbanda é àquela da liberdade do espírito; nossa ética, portanto, é a liberdade! Nós somos resistência e contracultura.


Uma força de resistência precisa possuir em suas colunas uma armada de Força & Honra. Virtudes potentes que provêm de uma morada luciférica interior e que podem ser cultivadas e desenvolvidas ao longo da jornada de iniciação. É isso que se quer ver desenvolvido em um kimbanda, para que ele possa continuar a batalha iniciada pelos ancestrais do Quilombo. Eleger na Quimbanda i. dogmas religiosos castradores; ii. moral travestida de princípios, é lutar contra a própria ancestralidade e força mágico-espiritual da Quimbanda.


Quimbanda é liberdade!


A Mão de Oráculo


Ao se iniciar na tradição de Quimbanda, o adepto recebe a transmissão de duas virtudes (àṣẹ) sacerdotais: i. a mão de faca; ii. a mão de oráculo.[1] Com o àṣẹ da mão de faca o feiticeiro torna-se um sacrificador sacerdotal do Culto de Exu; com o àṣẹ da mão de oráculo ele torna-se um oraculista sacerdotal do Culto de Exu. Com essas duas virtudes ele está preparado a comunicar-se e trabalhar magicamente com Exu.


A capacidade de oracular é tornar-se apto a se comunicar com os espíritos através de oráculos consagrados a comunicação espiritual, qualquer oráculo. O dom de oracular está na alma, no àṣẹ recebido e desenvolvido, não no oráculo, não na ferramenta. Então quem é oraculista de verdade, é capaz de oracular com qualquer ferramenta: cartas, ossos, búzios, tampinhas de garrafa, fósforos, palitos de dente, pedras etc. O oraculista, portanto, elege a melhor e mais efetiva ferramenta que lhe possibilita se comunicar com os espíritos.


Quimbanda é liberdade!


O Jogo de Búzios na Quimbanda


O jogo de búzios na Quimbanda Nàgô, a Cabalá de Exu, é um oráculo desenvolvido para comunicação com os Maiorais, Exu e Pombagira nos Sete Reinos da Quimbanda; o oráculo nasceu a partir das influências da cultura yorùbá aliadas ao arcano do septenário hermético.[2] Sua origem é afro-brasileira e sua estrutura abrange os Sete Reinos da Quimbanda e os Povos de Exus e Pombagiras.


Este oráculo foi criado e desenvolvido para Quimbanda Nàgô, mas há derivações dele para outras linhas de trabalho na Quimbanda, como os Caurís dos Exus.[3]


A Quimbanda, diferente da Umbanda e Candomblé, não absorveu o Érìndílógún e não admite operação magística com òrìṣà. A cultura banto que alimenta a cosmovisão de Quimbanda, sua espiritualidade e magia, opera de forma distinta àquela yorùbá com òrìṣa e irúnmalè. O trabalho fundamental é através dos antepassados, pois estes foram os primeiros a forjarem laços com os espíritos da natureza.[4] A Quimbanda herda essa característica fundamental da tradição espiritual banto na forma do trabalho magístico com os ancestrais divinizados, os Exus e Pombagiras, e não o trabalho com com òrìṣa e irúnmalè. A Quimbanda no Brasil é um culto necromante apenas, quer dizer, que trata somente e exclusivamente com mortos divinizados e égún diversos.[5]


Àqueles oraculistas que trabalham com os Caurís dos Exus de modo universal na Quimbanda são encorajados a sistematizarem o jogo de búzios em conexão (na gnose) com seus Exus tutelares, porque i. o segredo do Caurís dos Exus está na configuração pessoal da mesa (tábua ou peneira); ii. um oraculista genuíno é capaz de codificar para si seu oráculo.[6]


Quimbanda é Liberdade!


Oráculo de Ossos


A cultura banto desenvolveu um intricado sistema oracular através de diversas ferramentas: pedras retiradas do estomago de um crocodilo, feijões, espelho, nozes de palmeira, búzios, chifres, dentes e ossos como patas de animais, cabeça de urubus e corvos (e partes de outros animais como o pedaço do coração de um leão) etc. Inicialmente, nenhuma arte oracular banto chegou até a Quimbanda em sua gênese e desenvolvimento. Faz pouco tempo, com as facilidades do mundo moderno, sacerdotes de Quimbanda foram buscar entre os bantos o oráculo com ossos, o nkumbu. Sua estrutura é deveras parecida com o Érìndílógún yorùbá, no sentido de que possui uma divindade responsável pelos dons divinatórios, Nkuku-a-Lunga, deus da adivinhação e da sabedoria que recebeu de Nzambi essas virtudes.


Alguns sacerdotes de Quimbanda têm ponderado que este seja o oráculo mais apropriado a nossa arte e ciência, pelo fato de que os ossos têm mais conexão com os mortos divinizados do que os búzios. De fato isso não reflete uma realidade banto, mas encontra ressonância na arte da necromancia. O nkumbu é um oráculo conectado a ancestralidade e pode ser passado de uma geração a outra, de um parente para outro. O oráculo originalmente é composto por ossos (chifre de antílope, pata de macaco etc.), pedaços de cerâmica, pedras, conchas, restos vegetais, moedas, artefatos e até pequenas estátuas, tudo isso reunido dentro de um cesto.[7]


A Influência Europeia


A Quimbanda herdou grande influência da tradição ibérica-faustina de feitiçaria através das feiticeiras degredadas de Portugal pelo Santo Ofício. Com elas chegou ao Brasil à adivinhação através das cartas (baralho profano) em O Livro de São Cipriano, que traz técnicas cipriânicas de adivinhação. Nem todas as casas, terreiros, templos ou tradições de Quimbanda herdaram os Caurís dos Exus, a Cabalá de Exu ou nkumbu. Os feiticeiros desses seguimentos têm utilizado cartas, o baralho profano ou o baralho cigano, como um meio genuíno de comunicação espiritual e adivinhação. Essa prática está em consonância com a tradição de feitiçaria ibérica que alimenta a Quimbanda; como tal, é genuína.


Quimbanda é liberdade!



Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite




NOTAS:

[1] A transmissão desse àṣẹ, no entanto, depende de merecimento na Quimbanda Nàgô. [2] A arte de oracular com búzios não é patrimônio africano. Em várias partes do mundo, como na China e na Índia, búzios têm sido usados para se comunicar com o mundo espiritual. As tradições afro-brasileiras receberam essa influência dos africanos, mas se trata de um oráculo universal. O arcano do septenário hermético a Quimbanda herda da tradição cipriânica-faustina da magia. [3] Há um derivado deste oráculo, o Caurís dos Exus, para Umbanda, quando não trata dos Sete Reinos, mas das Sete Linhas: de dia para as Sete Linhas Brancas (ou de direita), a noite para as Sete Linhas Negras (ou de esquerda). Essa derivação para Umbanda, com influência do Érìndílógún (jogo por odus) do Culto aos òrìṣà, utiliza 5, 7, 9 e 16 búzios. Os Caurís dos Exus da Quimbanda observam a cabalá hermética do septenário, utilizando apenas 7 búzios ou múltiplos de 7. [4] Por esse motivo a cultura banto é considerada menos intricada (e inferior) a cultura yorùbá, que possui uma tecnologia magística mais desenvolvida, pelo menos na opinião dos acadêmicos e estudiosos. Trata-se de um equívoco essa ideia porque a cultura banto é de uma riqueza ainda desconhecida por nós e somente agora existem esforços pelo resgate da cultura banto dentro da Umbanda e quimbanda. Sobre esse tema indico a leitura do artigo de Robert Daibert, A Religião dos Bantos: Novas Leituras sobre o Calundu no Brasil Colonial. Publicado em Estudos Históricos (Vol. 28, No. 55). Rio de Janeiro, 2015. Indico também Filosofia Africanas de Nei Lopes e Luiz Antônio Simas. Civilização Brasileira, 2020. Veja ainda O Segredo da Macumba de Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade. Paz e Terra, 1972. [5] Embora existam casas/terreiros que funcionam traçados. [6] De igual modo, na tradição do Tarot o ápice da iniciação/desenvolvimento consiste no adepto configurar seu Tarot pessoal. [7] O nkumbu não tem qualquer conexão com o septenário hermético e pode conter até duzentas peças.

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