Baphomet na Quimbanda



Nota: Esse texto é um excerto do artigo em preparo chamado Titica de galinha na cabeça: Exu é anticósmico? Para qualquer um que não seja um analfabeto funcional, está muito claro no rigor da tradição literária de Umbanda e Quimbanda que tanto Exu quanto a própria natureza da Quimbanda não são avessos à estrutura do cosmos, e por um motivo muito simples, herança das culturas banto e yorùbá: ancestrais, espíritos dos mortos, estão associados a estrutura da sociedade e a história do homem. A estrutura do cosmos não é da alçada de Exu, Pombagira ou qualquer espírito ancestral. Trataremos disso no texto. A questão aqui é tão simples que chega ser ridículo ter que escrever uma crítica sobre essa idiotice.

Em paralelo a discussão central, coloca-se em xeque se as ideias modernas luciferianas, derivadas decadentes de inúmeras doutrinas gnósticas, como é o caso de se dizer que Exu e Pombagira da Quimbanda estão nos domínios da «luz adversária», enquanto que na Umbanda não. Qualquer um que seja sério nos estudos logo chega a conclusão que na formação cosmogônica e teogônica da Quimbanda imperava a visão cosmogônica e teogônica da cultura e sociedade brasileira, e que a construção da estrutura metafísica da Quimbanda espelhou essa configuração cultural, que nunca possuiu, em tempo algum, qualquer conexão com a metafísica e cosmovisão de nenhum grupo gnóstico antigo, ofitas, setianos etc.

Ao contrário disso, toda estrutura metafísica da Quimbanda foi elaborada a partir da interpretação do cânone tradicional e dogmático as Igreja Católica na sua prática popular, herança da feitiçaria ibérica. Portanto, associar ideias modernas luciferianas derivadas de más interpretações e reconstrucionismos gnósticos é a mais pura e singela DESONESTIDADE INTELECTUAL.



TEXTO: BAPHOMET NA QUIMBANDA



O símbolo mais importante da Quimbanda é a imagem de Baphomet imortalizada pelo Ocultista francês Eliphas Levi. Um símbolo trata-se de uma estrutura que nos capacita interpretar a realidade e que revela um significado, não necessariamente oculto, mas que as palavras podem não conseguir exprimir. Baphomet é um símbolo para o arcano da magia, e isso diz muito sobre sua presença na Quimbanda. A especulação trivial é que a Quimbanda assumiu o símbolo de Baphomet como o Diabo na intenção de se opor ao regime catequético cristão. Assim, assumindo o Diabo como simbólica do culto, infere-se que se trata de uma prática de oposição e transgressão ao status quo religioso dominante na cultura. Neste caso, a moral e piedade católica. Essa argumentação preenche as premissas sociológicas acerca da Quimbanda, dando sentido a elas, de fato. Mas é uma interpretação acadêmica e visão fora lócus do culto. Baphomet como símbolo na Quimbanda está associado à prática da magia, a realização taumatúrgica da vontade ou intento-mágico na Natureza, porque é isso que se quer na Quimbanda, efetivamente. Por isso ele é o símbolo maior da Quimbanda; por isso Maioral é o deus da Quimbanda e regente da Matéria, mas não o Deus do cosmos inteiro. Ele representa a regência mágica dos poderes sub-lunares aos quais o kimbanda tem acesso e manipula. Sua significação real é mágica, não sociológica.


É interessante notar que N.A. Molina na obra Saravá Exu (Espiritualista, 1982 – 6ª edição) abre seu livro com o Brasão Imperial do Chefe Império Maioral e diz na apresentação: Caro Irmão de Fé, ao escrever este pequeno trabalho, foi com intuito de esclarecer e ensinar aos Irmãos de Fé, diversos tipos de Magias, Feitiçarias, Oferendas e Despachos, diversos Trabalhos de Defesa e Ataque. Enfim procurei ensinar de tudo um pouco sobre o Agente Mágico Universal, suas cores, seus locais certos onde devem ser colocados os seus despachos. Pelo termo Agente Mágico Universal, conforme vimos significado em Agrippa (Três Livros de Filosofia Oculta, Madras, 2005) na forma de Alma do Mundo em Lévi, entenda Baphomet ou Maioral, que representa a totalidade da Quimbanda, seus reinos, povos, linhas, tecnologias mágicas diversas, manipulação energética, ligação mágica entre terra (ou tudo que é material) e céu (ou tudo que é espiritual, sobrenatural) etc., tudo nos domínios da magia prática. Isso é, tradicionalmente, Baphomet ou Maioral na Quimbanda. Qualquer interpretação diferente disso foge das tradições e raízes da Quimbanda.


Diferente do que postulam os kimbandas moderninhos que querem forçar a barra com interpretações e reconstruções gnóstico-luciferianas de quinta categoria dentro do sistema da Quimbanda, esclarecemos que toda a cosmogonia e metafísica da Quimbanda foi elaborada a partir da interpretação do cânone tradicional e dogmático da Igreja Católica em sua forma popular, legado da feitiçaria ibérica. Isso é demonstrado nas palavras da própria N.A. Molina no mesmo livro: [...] apenas transcrevo neste trabalho, que sempre existiu o bem e o mal, portanto o ataque e a defesa, como é sabido por todos, que existe Deus e o Diabo, mas que não se esqueçam nunca que Deus é o Todo Poderoso, como podem ver, o Diabo assim mais vulgarmente conhecido, pois tem diversos nomes, é o mesmo oposto de Deus, enfim o negativo de Deus. Essa é a concepção primordial da metafísica da Quimbanda. O Chefe Império Maioral é o Diabo, a incorporação total do Mal como ente distante e em oposição a Deus, porque o Mal é o afastamento ontológico do Bem. Veja o texto Goécia, Demonologia e Diabologia na Quimbanda (Parte I Revista Nganga No. 4, Parte II Revista Nganga No. 5).


Em No Reino da Feitiçaria (Livropostal Distribuidora, 2012) N.A. Molina demonstra ter conhecimento profundo da magia e filosofia renascentista e modernista, citando Agrippa, Gustavo Lebon e Schopenhauer entre outros. Ao discernir entre magia e feitiçaria, aliando a magia a aquisição de erudição e a feitiçaria ao curandeirismo e baixa escolaridade, diz: Os bruxos, feiticeiros ou quimbandeiros, como se diz hoje em dia são as pessoas malvadas e muitas vezes ignorantes, que possuem certos segredos transmitidos oralmente, e de modo solene, a outras pessoas inclinadas a pratica do Mal, para realizações, em comum, de seus propósitos criminosos. Todavia, muitos feiticeiros guardam cuidadosamente para si os conhecimentos que possuem, e morrem sem revelá-los a pessoas estranhas.


A popularidade da Quimbanda e sua reverência ao Chefe Império Maioral na forma de Baphomet tem chamado a atenção de maçons diversos, muitos deles já iniciados na Quimbanda. Através deles está em discussão a relação que a Quimbanda possa ter com os Cavaleiros Templários que também reverenciavam Baphomet e ordens de cavalaria medievais. Estou alerta a essa discussão!


Táta Nganga Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

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