A Quimbanda Nàgô & o Culto do Diabo



Nota: Esse texto foi publicado originalmente no site Filosofia Oculta com o título de «Feitiçaria Tradicional Brasileira» e agora é apresentado com revisão, notas e acréscimos.


Introdução


A Quimbanda Nàgô foi a primeira vertente de Quimbanda a utilizar a iconografia diabólica para os Exus e Pombagiras[1] e a imagem teriomorfa da deusa[2] Baphomet para o Chefe Império Maioral de todos os Infernos, o Diabo, a partir da influência mágico-cultural da tradição ibérica cipriânica-faustina. A Quimbanda Nàgô foi a primeira a apresentar a assinatura mágica (o ponto riscado da imagem que abre este ensaio) do Chefe Império Maioral e que hoje é utilizada por muitas vertentes distintas.[3] Da Europa vem à conformação estética e iconografia diabólica da Quimbanda. Fundamentalmente o que isso significa? Qual a relevância espiritual para essa conformação estética diabólica e o sincretismo estabelecido entre os Exus da Quimbanda e os diabos cipriânico-faustinos?


O sincretismo diabólico da Quimbanda trata-se de uma tendência religiosa que rejeita a dominação política e cultural que a religião cristã impõe em seus vários seguimentos. Então a Quimbanda estabelece um ponto de conflito, uma oposição e separação do cosmos social estabelecido pela mentalidade cristista castradora e alienadora: a família, os bons costumes, a moral etc., ferramentas de domínio social. O diabolismo da Quimbanda nasce como arma mágica de oposição sociocultural, política e religiosa. O sincretismo diabólico da Quimbanda é, portanto, um elemento de coesão social e arma contra a opressão e dominação moral e religiosa. No primeiro momento do Culto de Exu no Brasil (Sécs. XVI-XIX) que mais tarde se tornaria a Quimbanda do Séc. XX, essa resistência sincrética que já ocorria na religiosidade banto vinda da África culminou na eclosão do Quilombo, nos sendo transferida através do tempo pela Cabula e a Macumba, materializando-se efetivamente na Quimbanda. Os símbolos e o sincretismo diabólico da Quimbanda, portanto, representam essa luta e resistência antes de qualquer coisa, se valendo de imagens e ideias hieráticas diabólicas presentes na cosmovisão cristã que eclodiram e se espalharam pela Europa medieval. Esse sincretismo diabólico, interessante notar, ocorreu no Brasil, considerado o Novo Mundo, no entanto, reservado aos domínios do Diabo onde eram exiladas as bruxas e os condenados antissociais europeus.[4]


As críticas lançadas sobre a Quimbanda Nàgô e sua adoção de símbolos hieráticos diabólicos (europeus) parte, na grande maioria das vezes, do desconhecimento total acerca do processo de gênese e formação da Quimbanda e sua luta religiosa sociocultural. Não há como tirar essa influência cipriânica-faustina da Quimbanda, como alguns propõem, porque ela faz parte integral da estrutura do culto.


A Quimbanda Nàgô & o Culto do Diabo


Por meio da influência cipriânica-faustina da magia, a tradição de Quimbanda Nàgô ou feitiçaria tradicional brasileira é uma herdeira genuína do Culto do Diabo. Durante a Idade Média e Moderna, os inquisidores do Santo Ofício, treinados pelos manuais de demonologia que se espalhavam pela Europa, procuravam pelos vestígios de três crimes contra a fé cristã: o Pacto com o Diabo, a Marca do Diabo e a participação no Sabbath das Bruxas.[5] Estes três crimes contra a fé cristã sobreviveram na tradição de Quimbanda Nàgô e formam um tripé de sustentação.


O Pacto com o Diabo: A ideia de pacto com espíritos ou de pacto com o diabo como desenvolvida desde que os mitos de Fausto e Mefistófeles começaram a se espalhar pela tradição oculta e está associada à doutrina do espírito tutelar, presente também na tradição cipriânica-faustina da magia. Fausto teria, após uma série de invocações, assinado um pacto com Mefistófeles que, a partir daquele momento, tornou-se seu espírito tutelar, um diabo pessoal. São Cipriano, assim como Fausto era um mago poderoso do imaginário popular e também teria aprendido magia diretamente de sua associação com um diabo pessoal. Essa ideia de associação íntima com um espírito tutelar é consistentemente desenvolvida nos papiros gregos na relação que o feiticeiro deve construir com o paredros. Soldo: o poder que Salomão possuía, assim como as figuras míticas de Fausto e São Cipriano, bem como outros grandes magos da Antiguidade clássica e tardia como Simão o Mago, provinha diretamente de sua associação e pacto com espíritos, melhor dizendo, conhecimento e conversação com eles. O pacto com espíritos como o conhecemos hoje é o Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar, o daimon (ou demônio) pessoal que nos acompanha na jornada magística. Fazer um Pacto com Diabo, em essência e desde os primórdios da magia, trata-se de obter um espírito tutelar. Essa ideia está presente na feitiçaria tradicional brasileira no pacto que o kimbanda estabelece com seu Exu Tutelar no curso do Ritual de Iniciação.


A meta de todo feiticeiro como ilustrado romanticamente nos mitos de Fausto e São Cipriano é o Conhecimento & a Conversação com o Espírito Tutelar na intenção de receber dele instrução secreta de feitiçaria, obtenção de sabedoria oculta e poderes magísticos. Tudo isso o Diabo pode prover! A Confessio Cypriani narra os poderes adquiridos por São Cipriano através de sua relação com o Diabo. Afundar navios, fazer água aparecer no deserto, ter controle sobre correntes aéreas etc. são atos dignos de personagens como Moisés e Salomão; mesmo sendo eles fictícios, ilustram a busca fundamental do feiticeiro. Fausto, imerso em uma lúgubre floresta à noite, quando encontrou um caminho cruzado, invocou em nome do Príncipe dos Diabos o seu diabo pessoal, Mefistófeles, e com ele estabeleceu um pacto e adquiriu conhecimento arcano secreto. Por caminho cruzado entenda encruzilhada; por Príncipe dos Diabos entenda o Chefe Império Maioral de todos os Infernos. Reside aí no mito faustino a construção da hierarquia espiritual e que sobreviveu na tradição de Quimbanda no ordenamento em falanges os Exus e Pombagiras, as legiões do Chefe Império Maioral. É Maioral que libera o Exu Tutelar ao kimbanda, uma herança hierárquica observada na tradição salomônica (e por extensão na magia de Abramelin), na teurgia clássica neoplatônica e feitiçaria popular europeia. Maioral é para um kimbanda o que o Espírito da Natureza (o Diabo) era para as feiticeiras ibéricas exiladas no Brasil. Maioral foi um título dado ao Diabo como Regente do Inferno no Séc. XVI pelos inquisidores do Santo Ofício.


A Marca do Diabo: A marca do diabo atestava, portanto, que existia uma forma de comunicação oculta entre as bruxas e o Diabo. A literatura mágica e os autos da Inquisição trazem histórias e relatos de feiticeiras que mantinham conexões com forças diabólicas, diabos pessoais conhecidos como diabretes (masculino) e diáboas (feminino), os quais eram alimentados diariamente com sangue delas através do dedo mindinho ou outra parte do corpo. A marca do diabo era a cicatriz que a feiticeira carregava por alimentar seu diabo pessoal. No Ritual de Iniciação, o kimbanda ganha a Marca do Diabo: pequenos cortes que recebem – e portanto selam o compromisso – o sangue do animal sacrificado, compartilhado entre o feiticeiro e o Exu Tutelar. O Exu é plantado, assim dizemos, no corpo do kimbanda, que passa a ser seu assento. O sangue retirado desses cortes é introduzido diretamente no assentamento do Exu Tutelar. Como uma genuína herança da feitiçaria ibérica cipriânica-faustina, o Pacto estabelecido entre o kimbanda e seu Exu é de sangue.


O Sabbath das Bruxas: O sabbath ou a festa das bruxas era a suposta adoração romântica do Diabo na calada da noite em florestas sinistras. O encontro noturno esperava-se ocorrer à meia noite, quando o Diabo em pessoa apareceria para as feiticeiras em uma festa orgástica. Embora nos autos da Inquisição não conste nenhum relato de feiticeiras flagradas adorando o Diabo em festas e bacanais, há relatos de testemunhos, muitas vezes tecidos pelas próprias bruxas, da realização do sabbath. Na tradição de Quimbanda, o Sabbath das Bruxas são as Giras que ocorrem na Hora Grande, a partir da meia noite, quando Maioral de todos os Infernos vem autorizar a presença dos Exus e Pombagiras.


O exercício da Quimbanda Nàgô envolve um aprofundamento em círculos cada vez mais concêntricos de obscuridade. Quanto mais fundo nos lançamos ao perigoso entrecruzamento de forças nos Reinos da Quimbanda, mais a compreensão de sua sabedoria se torna densa, obscura e sinistra. O véu que esconde toda essa sabedoria arcana, sinistra e obscura é um folclore diabólico confuso, no entanto, vertiginosamente dinâmico e criativo.



Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite



NOTAS: [1] A Quimbanda Nàgô é a tradição de Quimbanda que se caracteriza por utilizar imagens de Exus e Pombagiras como diabos. Essa tendência se infiltrou em outras vertentes de Quimbanda. Veja Tadeu Mourão, Encruzilhadas da Cultura (Aeroplano, 2012). [2] Uma deusa porque representa o Espírito da Matéria. Essa matéria, no entanto, não é sinônimo de planeta Terra, mas de cosmos material. [3] O que demonstra uma falta de maturidade mágica e iniciática horrorosa. [4] Veja Carlos Roberto F. Nogueira: O Diabo no Imaginário Cristão (Ática, 1986); O Nascimento da Bruxaria (Imaginário, 1995); Bruxaria & História (EDUSC, 2004). Veja também Laura de Mello e Souza: Inferno Atlântico: Demonologia e Colonização (Companhia das Letras, 1993); O Diabo e a Terra de santa Cruz (Companhia das Letras, 1994). Finalmente veja Tadeu Mourão, Encruzilhadas da Cultura (Aeroplano, 2012). [5] Veja Humberto Maggi, Scientia Diabolicam. Clube de Autores, 2019.

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