A Pombagira no Imaginário Brasileiro



Nota: esse texto nasce de antigas reflexões publicadas no site Filosofia Oculta acerca da Pombagira, seu arquétipo e imaginário. As reflexões foram revisadas, anotadas e editadas para a presente publicação.



Exu e Pombagira são patrimônios do povo brasileiro! Entidades do imaginário cultural que influenciaram práticas e crenças populares. Ocorre uma simbiose interessante entre a formação do mito e a construção de práticas e crenças religiosas alimentadas por esses mitos. Na medida em que um se desenvolve, o outro também se desenvolve na mesma proporção. Então os mitos dão origem e alimentam práticas mágicas e religiosas; essas, por outro lado, alimentam e reforçam as crenças nos mitos. A partir do imaginário criam-se as lendas, contos e histórias que inspiram músicas, livros, estudos e peças de teatro. Tudo isso alimenta e reforça o imaginário, práticas mágicas e crenças religiosas.


Eu estabeleço uma relação entre o arquétipo de Pombagira e o glifo mágico da deusa Baphomet. Antes de mim, Fontenelle (Exu, 1951) já havia estabelecido equivalência entre esses símbolos, mas com aquela significação esboçada por Éliphas Lévi. Hoje nós sabemos que o glifo da deusa Baphomet é uma conjunção de símbolos antigos associados ao culto às deusas negras (Lilith, Astarte, Asherah, Hécate etc.) antigas. De igual forma, o imaginário cultural de Pombagira foi formado não apenas por esses mesmos símbolos e arquétipos das deusas negras, mas também das feiticeiras europeias como a Bruxa de Évora e Maria de Padilha, ambas elevadas à condição de Pombagiras Chefe de Falange na Quimbanda.


Eu tenho dito que toda Quimbanda é cipriânica, pois destaco a influência da magia cipriânica-faustina presentes na feitiçaria do culto de Quimbanda. De O Livro de São Cipriano não apenas fórmulas mágicas são derivadas, como àquela faustina do Pacto com o Diabo, mas também a imagem ou arquétipo tradicional da feiticeira como representada na persona da Bruxa de Évora, que inspirou a iconografia de muitas Pombagiras. João do Rio, um jornalista que escreveu acerca dos diversos cultos praticados no Rio de Janeiro por volta da década de 1900, ao falar sobre as casas de Macumba que deram gênese ao que conhecemos hoje como Quimbanda, disse:


Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de São Cipriano. Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica do São Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas fatais os negros soletram o São Cipriano, à luz dos candeeiros.[1]


Por outro lado, outro fator que alimentou a iconografia de Pombagira no imaginário popular do Brasil foi à caracterização com a qual o Santo Ofício apresentava a imagem da bruxa a partir dos relatórios dos julgamentos das feiticeiras.


Andar nua e com o cabelo [solto] certamente identificava, no imaginário popular, a protagonista deste com a bruxa. No século XVI, em Évora, sabe-se que a interessada nos conjuros das pedras devia fazê-lo «em cabelo e em camisa à janela, fitando as estrelas e segurando na mão nove pedras apanhadas em encruzilhadas. No século XVII, persistiria tal gestualidade: em 1637, Maria Ortega conjurava os espíritos desguedelhada e nua da cintura para cima, e em 1664 era de forma idêntica que Maria da Silva invocava demônios ou proferia uma bela oração de Santo Erasmo, valendo-se também de um alguidar e velas verdes.» [...] Já Arde-lhe-o-rabo afirmava vagar descabelada e nua pelos adros e matos, em busca de feitiços: «porque eu ponho-me à meia noite no meu quintal e com minha cabeça ao ar com a porta aberta para o mar, enterro e desenterro umas botijas e estou nua da cintura para cima com os cabelos [soltos]; eu falo com os diabos e os chamo e estou com eles em muitos perigos.» Quando voltava das andanças, vinha «moída» pelos diabos e pelos trabalhos que tivera.[2]


A Bruxa de Évora é um exemplo tangível de como o imaginário popular influencia práticas mágicas e crenças religiosas. A origem de seu mito remonta a uma publicação de 1739 intitulada História das Antiguidades de Évora, do português Amador Patrício.[3] Posteriormente, as edições de O Livro de São Cipriano a partir do Séc. XVIII começaram a construir a ideia de uma conexão entre a Bruxa de Évora e São Cipriano. Ambos mitos construídos que começaram a tomar corpo espiritual e a fazer parte do imaginário popular ibérico e, em seguida, brasileiro. Tanto que a Bruxa de Évora acabou por se tornar uma Pombagira.


Então vagarosamente começamos a tecer uma intricada gama de influências culturais na formação do arquétipo de Pombagina na cultura brasileira. A Umbanda, por exemplo, foi responsável pela disseminação da ideia de que Pombagira é mulher de sete homens (Exus). Essa ideia vem da Maria Madalena do Novo Testamento (veja Lucas, 8:2), e se espalhou como xuxu no imaginário cultural brasileiro. Maria Madalena tornou-se o protótipo par excellence da Pombagira na Umbanda: ela foi prostituta, viveu na iniquidade e era assolada por espíritos diabólicos (sete pelo menos). Curou-se através da conversão a fé cristã no batismo e tornou-se umas das mais importantes auxiliadoras de Jesus. Em uma Umbanda consumida pelas bodas com Cristo, o mito de Maria Madalena serve como luva a expressão religiosa de Pombagira como Exu-Mulher batizada e auxiliadora das giras de esquerda.


Outras personagens bíblicas como a Rainha do Sabá (nos mitos umbandistas considerada uma encarnação da Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas), a Bruxa de Endor, Jezebel etc., a própria Eva – considerada a primeira de todas as bruxas que espalhou o veneno (poder de magia) entre as mulheres e a Lilith cabalística (identificada por alguns kimbandas com a Pombagira Rainha do Inferno) endossam, alimentam e revigoram o imaginário cultural brasileiro sobre Pombagira.


Acima eu coloquei ênfase no fato de que Pombagira – da mesma maneira que a imagem de Baphomet – trata-se de um amalgama de símbolos e totens da Grande Deusa (Lilith, Astarte, Hécate, Afrodite etc.). Invocar Pombagira, seus poderes e virtudes, é operar com todas essas deusas de uma só vez. No entanto, o que deu caráter arquetípico e iconográfico a Pombagira foi a feiticeira europeia acusada de pactuar com o Diabo e festejar com ele em noites de Lua Cheia no sabbath das bruxas.


Muito embora existissem clãs (covens) ocultos de feiticeiras que transmitiam sua sabedoria oralmente, nenhuma reunião, festa, encontro ou ritual sabático foi flagrado. Todos os registros de tais encontros foram arrancados a força das feiticeiras capturadas, torturadas e executadas nas fogueiras (muitas delas espetadas, assadas, enforcadas ou afogadas). O mais antigo relato sobre os encontros sabáticos vem de Toulouse, por volta de 1355. Nesse relato 63 pessoas foram capturadas. Oito mulheres foram condenadas ao fogo e todas as outras pessoas ganharam prisão perpétua. Sob tortura, mulheres de todas as idades, meninas, adultas e velhas, confessaram participar do sabbath, pactuar e até copular com o Diabo, roubar, sacrificar e comer a carne morta de bebês arrancados de suas mães na calada da noite. As almas de centenas de feiticeiras condenadas pelo Santo Ofício, estupradas e assassinadas pelas autoridades civis residem, todas juntas, em Pombagira.


O sabbath das bruxas imaginado pelos cristãos que teceram seu mito muito provavelmente foi inspirado nas celebrações mensais quando as comunidades rurais comemoravam a passagem do mês, um momento de descontração, ou até mesmo nos sabás maiores do ciclo solar (nascimento, vida, declínio e morte). Seja como for, o personagem principal do sabbath das bruxas era o Diabo, uma criatura com cascos e chifres. Essa caricatura do Diabo como um sátiro chifrudo data do Séc. VI, quando o Papa Gregório I declarou que o Diabo (Satanás) tinha chifres e cascos, emanava um fedor horrível e tinha pleno domínio das forças da natureza. Gregório se inspirou no bode expiatório de Levídico 16:8 enviado a Azazel, conectando a ideia de pecado a um bode errante pelo deserto. Mas a caracterização definitiva do Diabo como um bode preto materializou-se somente na Idade Média, quando o deus gaulês Kerne (Cernuno/cornífero) e o deus árcade dos pastores, Pã, foram profanados e perseguidos como o Diabo. Os sacerdotes de Kerne vestiam-se como sátiros nas suas celebrações e essa imagem parece ter incendiado a criatividade dos tecedores de mitos: toda caça as bruxas foi baseada em uma farsa inventada – ou ignorantemente burra interpretada – de que havia um complô diabólico para derrubar a fé cristã. Essa crença charlatã mentirosa perseguiu, torturou e assassinou muitas mulheres. E todas elas vivem em Pombagira!


Outra fonte de inspiração para o sabbath das bruxas era o Bode de Mendes de Raneb, um faraó da segunda dinastia egípcia que por volta de 2800 a.C. promoveu o culto do Bode da Sabedoria na cidade de Mendes, no delta do Nilo. O culto ao Bode da Sabedoria marcava períodos dedicados ao estudo e ao cultivo da sabedoria. Ao Bode de Mendes ou da Sabedoria foi atribuído um símbolo, o pentagrama invertido, que representava gnose e iluminação espiritual (enquanto que o pentagrama era um glifo atribuído as deusas). Após as declarações do papa Gregório I, o pentagrama tornou-se um símbolo maligno e glifo definitivo do Diabo.


A feitiçaria tradicional brasileira, a tradição de Quimbanda Nàgô, é herdeira genuína da luta das feiticeiras europeias (e de todas as bruxas, cartomantes, curandeiras, benzedeiras etc.) e do Culto do Diabo ao qual adoravam. A iconografia de Pombagira, uma mulher livre de saia esfarrapada, colorida (ou nua) com os seios amostra, os cabelos soltos, esbravejando heresia, dançando ao redor de uma fogueira ou aos pés do Diabo, pode ser observada nos relatos dos autos da Inquisição de feiticeiras executando seus rituais. Há uma literatura farta sobre o tema. Nas giras de Quimbanda as almas dessas feiticeiras vêm em terra, dançar e cantar ao redor do Chefe Império Maioral, o Diabo e Bode da Sabedoria. No seu girar Pombagira vem curar, purificar, edificar, unir ou separar, destruir, humilhar.


Salve as Pombagiras.


Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite


NOTAS: [1] João do Rio, As Religiões do Rio, 1904. [2] Laura de Mello e Souza, Inferno Atlântico: Demonologia e Colonização nos Séculos XVI-XVIII. Companhia das Letras, 1993. [3] Veja Humberto Maggi: Queen of Sevem Crossroads. Hadean Press, 2020. Publicado em português pela editora Via Sestra com o título de Rainhas da Quimbanda (2021).

73 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo