A Incursão Diabólica no Brasil



Palavras Iniciais


Esse é um texto esquenta para a próxima edição da Revista Nganga no. 4 que poderá ser adquirida gratuitamente no site da Quimbanda Nàgô no Brasil. Nos textos que compõem a Revista Nganga nos seus três primeiros números eu me esforcei em apresentar um histórico conciso sobre a influência da tradição ibérica da magia – que inclui a magia cipriânica tradicional e a tradição erudita dos grimórios europeus – não somente na feitiçaria brasileira, mas na própria identidade mágica do Brasil. A quarta edição da revista conclui essa introdução histórica com a última parte do texto O Pacto com o Diabo & a Magia Cerimonial Europeia na Tradição de Quimbanda, iniciando um estudo mais abrangente sobre demonologia, diabolismo e o mal na Quimbanda com a primeira parte do texto Iniciação na Família Cova de Cipriano Feiticeiro. A intenção de dissertar sobre esses temas, mesmo que de maneira rápida em uma revista que não se propõe ao aprofundamento, não é só desmistificar a Quimbanda como culto brasileiro tradicional ao Diabo, mas também clarear os fatos históricos da incursão diabólica no Brasil. Há um movimento contra-diabo em algumas famílias de Quimbanda, de Umbanda e até de Candomblé, que muito embora não tenha nada a ver com isso, gosta de se meter na Quimbanda de modo geral. Então o questionamento é esse: se a angeologia católica-judaico-cristã invadiu a Umbanda e outras tradições afro-brasileiras em meandros que até agora se mostraram confusos, por que diabos a demonologia e o diabolismo estão sendo deixados de fora do contexto histórico?


O texto Iniciação na Família Cova de Cipriano Feiticeiro se esforça, portanto, em apresentar o outro lado da história: se muito é falado sobre a incursão angélica na Umbanda, o artigo começa a clarear a incursão diabólica na Quimbanda sobre uma perspectiva puramente histórica e que abrange também a própria história do conceito de mal e do Diabo. Esse tema é aberto como uma introdução para que nas próximas edições da Revista Nganga seja explorado com mais propriedade.


Quando nós falamos do Diabo na Quimbanda, bem como sobre a associação entre Exus diversos e demônios, temos que saber encontrar essa influência diabólica e miscigenação demoníaca historicamente no tempo. Não só o Diabo, mas também sua hoste de demônios que se encontram hoje na Quimbanda, são àqueles que compuseram o corpus literário da Europa medieval, assim como a interpretação da magia naquele período.


Os comentadores medievais sobre os grimórios entendiam a magia de duas formas. De um lado a magia era encarada teologicamente e socialmente como uma forma desaprovada de culto religioso ao Diabo. Essa visão era condenada como uma perversão da própria religião, que se utilizava de ferramentas rituais para conexão, coerção ou imprecação de forças demoníacas. A outra visão tradicionalmente associada à prática da magia queria compará-la a própria ciência, apresentando-a como uma alternativa – talvez equivocada – de construção científica que enfatizava – em contraste com a intervenção de forças demoníacas – os poderes ocultos e forças naturais, as simpatias universais e correspondências mágicas das quais se valia na prática.


A visão depreciativa da magia remonta as interpretações e postulados de Santo Agostinho e que, de fato, foram à primeira tentativa sofisticada de definir a magia como um sistema de comunicação demoníaca que utilizava símbolos e ferramentas rituais, em contraste com o cristianismo que, de igual modo, utilizava símbolos e ferramentas rituais para comunicação com forças divinas. Desse modo, as matérias tradicionais da magia, quer dizer, alquimia, astrologia e magia ritual eram encaradas como superstições que propunha a comunhão explícita ou implícita com demônios. Implícita porque muitas vezes o operador não estava ciente dessa comunicação por causa da significação oculta dos símbolos que ele utilizava e que não compreendia completamente. Para Santo Agostinho, qualquer prática mágica, estando o operador ciente disso ou não, tratava-se de idolatria e demonolatria, sendo portanto, perigosa. Agostinho tinha plena consciência do uso mágico de elementos, palavras e símbolos, reconhecendo que muitos magos agiam de igual modo aos santos ao utilizá-los. A diferença não era àquilo que se encontrava no plano visível, mas no plano invisível, o que estava secretamente implícito. Enquanto os santos se comunicavam com os poderes divinos do bem para fins exclusivamente espirituais, os magos se comunicavam com as hostes do mal para fins exclusivamente egoístas. Essa visão agostiniana não foi somente herdada de filósofos neoplatônicos, mas perdura até os dias de hoje no contexto do Ocultismo moderno e algumas famílias de Umbanda e outras tradições afro-brasileiras.


Essa rejeição das práticas mágicas como meio de comunicação com o Diabo e sua hoste de demônios ainda era forte no início da Idade Média, e permaneceu assim mesmo com o surgimento das ideias renascentistas e iluministas da Era Moderna. Em detrimento disso uma disputada discussão sobre a natureza dos demônios, seus poderes, atuação, influência e o perigo de invocá-los se instaurou nos meios teológicos e científicos. A tensão nessa inflamada discussão ocorreu porque a concepção medieval de demônio tinha duas fontes: a interpretação greco-romana de daimon, um espírito intermediário – neutro e às vezes benfazejo – poderoso que poderia ser invocado e agradado com oferendas e sacrifícios para auxilio dos homens, e a concepção católica de demônio, um anjo caído e espírito maligno que respondia diretamente ao Diabo e que não só corrompia a alma humana ao pecado, que causava pragas e doenças ao homem, mas que também podia auxiliá-lo caso fosse imprecado através de símbolos corretos, palavras e ferramentas rituais. Então veja que não era a existência de demônios que estava sendo debatida realmente, mas a competência humana em invocá-los e sua intervenção na Natureza e cotidiano da comunidade cristã.


Foi a visão católica do Diabo e dos demônios que esteve presente nos grimórios, muito diferente do catolicismo e feitiçaria popular ibérica, onde esses espíritos eram convocados como familiares e auxiliadores das bruxas. Essa tradição popular influenciou profundamente a identidade mágica brasileira, como veremos em detalhes na Revista Nganga no. 4, mas quando o assunto é especificamente a Quimbanda, principalmente em seu segundo momento após a década de 1950, é a visão dos grimórios do Diabo e dos demônios como anjos caídos que foi associada ao trabalho de Exu e Pombagira. Desse modo foi excluída a interpretação greco-romana de daimon na Quimbanda, restando apenas a associação com os demônios como compreendidos nos grimórios. Foi dessa maneira que a Quimbanda foi associada a prática do mal e a magia negra demoníaca. Essa incursão diabólica você poderá estudar também na Revista Nganga no. 4. Não perca!


São Cipriano & a Verdadeira Magia Negra

no Primeiro Momento de Incursão Diabólica no Brasil


O Diabo e seus demônios chegaram no Brasil – a parte dos índios que aqui já viviam e foram identificados como adoradores do Diabo pelos primeiros jesuítas que pisaram em nossa terra – com as bruxas degredadas pelo Santo Ofício no Séc. XVI e pelo conteúdo mágico contido em O Livro de São Cipriano. Como demonstrei na Revista Nganga no. 4, O Livro de São Cipriano em suas muitas edições e versões é um compendio de magia popular ibérica (e de outras partes da Europa) associado ao conteúdo de grimórios como o Heptameron e o Veritable Magie Noir (A Verdadeira Magia Negra). A edição mais celebrada de O Livro de São Cipriano é àquela atribuída ao monge fictício Jonas Sufurino e ela foi largamente baseada no Veritable Magie Noir. Não foi essa a primeira versão que chegou ao Brasil com as feiticeiras degredadas, com certeza absoluta, mas muito de seu conteúdo esteve presente nessas edições que aqui chegaram, influenciando em sua gênese a formação da identidade mágica do Brasil. O conteúdo de magia negra de O Livro de São Cipriano está na fundação da feitiçaria de nossa terra desde o Brasil Colônia. O Espírito de São Cipriano, se romanticamente podemos postular, foi a ponte entre o primeiro e o segundo momento do Culto de Exu no Brasil, onde os demônios do Grimorium Verum ganharam vida na Quimbanda ao serem associados aos Exus.


O Livro de São Cipriano influenciou muitos dos métodos de magia que conhecemos na macumba brasileira. A visão popular de magia que ele trouxe ao Brasil, o trato e o pacto com espíritos tutelares ou familiares diabólicos, ao lado de preces aos santos e a trindade cristã, pavimentou o caminho até o surgimento da Quimbanda Goécia de Aluízio Fontenelle na década de 1950 que associou pela primeira vez a magia dos grimórios europeus aos Exus e deu a forma pela qual a Quimbanda como a conhecemos hoje cresceu e se sustentou. É para honrar a herança mágica que São Cipriano traz a macumba brasileira que dedicamos a ele o quarto número da Revista Nganga.


O Grimorium Verum & a Quimbanda

no Segundo Momento de Incursão Diabólica no Brasil


O segundo momento de incursão diabólica no Brasil começa com Aluízio Fontenelle, que associou os demônios do Grimorium Verum aos Exus da Quimbanda. O termo Quimbanda Goécia por um lado é incongruente, porque somente alguns espíritos do Grimorium Verum são encontrados também no Lemegeton, não todos. Mas por outro lado não é, porque goécia dentro de um escopo histórico maior se trata do contato e comunicação com os mortos; foi somente com a interpretação cristã que o termo goécia foi associado a comunicação exclusiva com demônios. Se a nossa base de pesquisa é a história dos conceitos, podemos dizer que o termo goécia, seu desenvolvimento e entendimento cultural no imaginário do Ocidente, implica hoje tanto a comunicação com os mortos quanto a comunicação com demônios e, portanto, pode ser associado livremente a Quimbanda brasileira e a necromancia de modo geral.


Como dissertei introdutoriamente no texto A Influência Demoníaca na Hierarquia da Quimbanda, a chefia dos Exus e Pombagiras na Quimbanda Nàgô está a cargo da Trindade do Oposto conforme exposta no Grimorium Verum. Este é um grimório moderno que diferente dos grimórios tradicionais, fala mais abertamente sobre a prática da magia negra e o pacto com os espíritos das trevas. Ele tem uma inclinação bem diabólica – ou satânica se preferir – diferenciando-se de outras fontes, muito embora sua base seja a Clavicula Salomonis e o Lemegeton. Seja como for, ele adquiriu popularidade porque dissolveu muitas das dificuldades expostas nas prática mágicas presentes nos grimórios anteriores, facilitando o acesso aos espíritos demoníacos.


Como eu falei acima, muito embora a maioria desses espíritos esteja associada a tradições pagãs anteriores ao cristianismo, eles não são daimones, mas demônios e como tais, carregam a mácula do mal segundo a visão cristã. É essa visão que foi associada a Quimbanda e aos Exus como agentes do mal e não há como fugir disso. Eu venho dando detalhes sobre o que é o mal e sua prática na Quimbanda em textos aqui no site e em textos na Revista Nganga, e continuarei clareando isso nas edições subsequentes. A lógica de se associar os demônios do Grimorium Verum ao trabalho com Exus e Pombagiras, criando uma interface mágica entre os éteres que eles habitam para sua conexão, está exposta no próprio Grimorium Verum: os espíritos menores comandados pela Trindade do Oposto, Lúcifer, Beelzebuth e Ashtaroth, são espíritos inferiores aos seres humanos. Veja aqui para não se perder como muitos perdidos nisso: os Exus e Pombagiras da Quimbanda são almas humanas deificadas. Você sabe o que é uma alma humana deificada? É uma alma que não sofre a segunda morte, que mantém sua integridade, ética, memória e todos os complexos da consciência após a morte do corpo físico, habitando em um plano divino – no caso da Quimbanda os Reinos do Chefe Império Maioral – e sendo capazes de auxiliar os vivos em suas demandas. Temos o exemplo dos santos católicos, dos chefes secretos de thelema, dos mestres ascencionados da teosofia etc. como dissertei no meu texto Os Poderosos Mortos: Exus & Pombagiras nas Tradições Mágico-Culturais do Mundo.


Sendo os demônios menores do Grimorium Verum espíritos inferiores aos homens, portanto compelidos pela autoridade espiritual dos homens, eles também são compelidos a autoridade espiritual dos Exus e Pombagiras que foram homens e hoje são almas deificadas, da mesma forma que os santos católicos têm poder sobre os demônios na tradição cristã. Veja que a discussão medieval então volta a tona: a capacidade do homem em compelir os espíritos malignos para que intercedam na Natureza e no cotidiano da comunidade.


É sobre isso que vamos dialogar na próxima edição da Revista Nganga. Não perca!



Táta Nganga Kamuxinzela

Mestre de Quimbanda Nàgô e Quimbanda Mussurumin

Cova de Cipriano Feiticeiro

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