A Hierarquia Iniciática da Quimbanda Nàgô



A Quimbanda Nàgô é um culto tradicional a Exu e Pombagira que se compõe dentro de uma estrutura hierárquica e iniciática, operando dentro de um sistema familiar de transmissão de àṣẹ (moyo) na forma de fundamentos que devem ser perpetuados no curso do tempo por todos os adeptos iniciados no culto. A autoridade máxima no culto é o Mestre ou Mestra chefe da família, que atua em conformidade ao Exu (táta) e Pombagira (mameto) chefe da banda.


Quando um postulante busca pela iniciação na Quimbanda, a ele é apresentado a estrutura do culto dentro do contexto de uma consulta ao oráculo. Como são muitas dúvidas que chegam, decidi tecer algumas palavras sobre a estrutura hierárquica e iniciática da Quimbanda Nâgô, na forma como apresentamos na família Cova de Cipriano Feiticeiro (@covadecipriano).


A estrutura hierárquica do culto se divide em três graus iniciáticos até a maestria:


Iº Grau: Noviço

IIº Grau: Adepto

IIIº Grau: Sacerdote (kimbanda)


O Mestre de Quimbanda é àquele que cumpriu a jornada através dos ordálios espirituais que cada grau oferece.


NOVIÇO: O BATISMO


O batismo na Quimbanda Nàgô é a cerimônia de apresentação do noviço ao Chefe Império Maioral, seu reinado, e ao seu Exu tutelar. No batismo o noviço inicia sua relação com a Quimbanda e com seu Exu tutelar, buscando por uma aproximação e conexão profunda com ele. O batismo é um período probatório e espera-se que o noviço i. organize sua ancestralidade; ii. trabalhe sobre seu ego, vícios e paixões; iii. demonstre honra, força de vontade, comprometimento, e respeito ao seu mestre.


Espera-se que o noviço já traga seu Exu tutelar em terra nessa cerimônia. O noviço é instruído a iniciar um culto pessoal ao seu Exu tutelar através dos métodos da Quimbanda Nàgô, o que envolve técnicas de feitiçaria e psicurgia diversas para o desenvolvimento mediúnico.


O noviço recebe uma firmeza na linha da Quimbanda orientada pelo oráculo ou pelo Exu chefe da banda em terra. Junto à firmeza o noviço recebe uma guia de Quimbanda na linha de seu Exu tutelar ou nas cores tradicionais da Quimbanda.[1]


O batismo na Quimbanda é um período probatório e o noviço será testado em aptidão muitas vezes. Seu comportamento é avaliado minunciosamente, assim como suas intensões, seu comprometimento e devoção a Quimbanda.


O mestre orienta na medida em que o noviço busca e merece receber orientação.


ADEPTO: A INICIAÇÃO


Com tempo e merecimento, o noviço passa pela cerimônia de iniciação na Quimbanda e torna-se um adepto. Como noviço ele ainda não havia estabelecido laços definitivos com a Quimbanda, mas como adepto, ele recebe a chancela mágica da Quimbanda em sua alma, quando constitui o pacto diabólico com seu Exu tutelar e começa a construir sua aliança definitiva com o Chefe Império Maioral, o Diabo. No curso de sua iniciação o adepto recebe o assentamento de seu Exu tutelar e começa a cultuá-lo com as instruções de seu mestre em sua casa. A partir daí iniciá-se uma jornada de evolução iniciática dentro do culto, onde o adepto conquistará graus hierárquicos até que esteja apto ao sacerdócio.


O adepto recebe o assentamento de seu Exu tutelar e com tempo e merecimento, estará apto a receber a faca de obrigação. Essa é a primeira e mais importante faca do adepto, com a qual ele realizará suas obrigações de sacrifício animal ao seu Exu tutelar. Novamente, com o tempo e merecimento, ele recebe o assentamento de sua Pombagira tutelar e de seu Exu de fundos, constituindo materialmente a sua Coroa de Exus e Pombagira.


SACERDÓCIO: O KIMBANDA


Após desenvolver-se hierarquicamente no culto, tendo merecimento, honra e caminhos para tal, o adepto ingressa na vida sacerdotal tornando-se um kimbanda do culto, quando recebe a faca de serviço e o oráculo, a Cabalá de Exu, fundamentos através dos quais ele poderá prestar serviços mágico-sacerdotais em nome da Quimbanda Nàgô. A faca de serviço é a segunda faca que o kimbanda recebe, e a partir daí inicia-se mais uma jornada de capacitação onde ele deverá se esforçar para conquistar todos os fundamentos da vida sacerdotal, como o assentamento do Cruzeiro das Almas, os assentamentos do Ogum e do Preto-Velho kimbanda, bem como outras facas fundamentais de trabalho sacerdotal, como a faca de carrego, a faca do oriente, a faca preta, a faca de kiumba, a faca de abertura, dentre outras, que compõem os fundamentos do sacerdócio.


E tendo adquirido os fundamentos o exercício sacerdotal, estando preparado e sendo merecedor, o kimbanda estará apto a se tornar um Mestre da Quimbanda Nàgô, com direitos adquiridos para iniciar noviços, constituir assentamentos e transmitir os fundamentos do culto.


O MESTRE


A jornada de um kimbanda só se inicia, verdadeiramente, quando ele se torna um Mestre do culto. Até este momento ele apenas se preparou para a efetiva vida de um kimbanda. A última faca recebida é a faca de égún. Dentre todos os fundamentos de faca, é a faca de égún que confere a maestria, autoridade e autorização dentro do culto. A faca de égun, como todas as outras que o kimbanda recebeu, nasce diretamente das mãos e da faca de seu Mestre iniciador. Todos os àṣẹ no culto são transmitidos diretamente pelo mestre, porque na Quimbanda nós só damos àquilo que possuímos.


O tempo de desenvolvimento no culto depende da jornada individual, do merecimento, do comprometimento e da honra de cada um. A Quimbanda se trata de um culto para Homens capazes de empunhar uma Faca em nome do Diabo. Como tudo na Natureza, só os mais aptos e os melhores evoluem no culto.


Táta Nganga Kamuxinzela

Cova de Cipriano Feiticeiro



NOTA: [1] Há casos em que o noviço só recebe a guia. Tudo depende da orientação do oráculo.

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