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As linhas de Quimbanda não são vertentes de Quimbanda, mas grandes agrupamentos primários de espíritos classificados segundo seus padrões vibratórios (frequência) e que respondem dentro das diversas vertentes de Quimbanda: Malê (ou Malei), Mussurobi, Nàgô, Almas etc. O que as vertentes de Quimbanda oferecem são as chaves de acesso a esses agrupamentos de espíritos que com o passar do tempo e instrução espiritual deles mesmos foram organizados em reinos e povos. As vertentes são definidas, portanto, pela maneira como propõem os fundamentos e as chaves de acesso.

 

A Linha dos Caveiras é um povo organizado em falanges dentro do Reino das Almas (ou do Cemitério em algumas vertentes), não uma vertente de Quimbanda. Da mesma maneira a Linha dos Caboclos Quimbandeiros é um povo dentro do Reino das Matas (ou Africano em algumas vertentes). Assim, como veem as Linhas de Quimbanda então dentro de todas as vertentes de Quimbanda. De outro modo, independente da vertente, onde o Chefe da Casa for Exu Caveira, ali existe a Linha dos Caveiras; de igual modo, independente da vertente, onde Exu Pantera Negra for o Chefe da Casa, ali existe a Linha dos Caboclos Quimbandeiros.

 

Os Reinos da Quimbanda estão diretamente associados com a evolução do planeta Terra e a vida do ser humano, classificados a partir disso. Inseridos e organizados em povos estão os espíritos da Quimbanda agrupados em falanges (o nome destes espíritos) e legiões (espíritos de falanges diversas que operam várias bandas, são os Exus Cruzados). Dessa forma é possível que alguns Exus e Pombagiras operem em reinos distintos. É através dessa interação entre os povos que nascem esses espíritos cruzados (i.e. miscigenados) na Quimbanda. É o caso de Pombagira Cigana das Sete Saias e Exu Tranca Ruas de Embaré por exemplo. Hibridismo e miscigenação religiosa estão nas raízes fundantes da espiritualidade brasileira.

 

Os espíritos originários das vertentes de Quimbanda se manifestam nos padrões vibratórios de cada uma, e isso se materializa na maneira em como os fundamentos são transmitidos e praticados. No entanto, isso também não impossibilita que estes Exus Primordiais se manifestem em outras vertentes. Então existem distinções práticas entre as vertentes, no entanto elas são convergentes. De outro modo, as linhas e povos da Quimbanda existem independentes da maneira como os fundamentos são praticados pelos adeptos, deste modo o Exu Primordial de uma vertente pode se manifestar como falangeiro em outra.

 

Exu Gererê ou Exu Rei de Ganga como é conhecido na Quimbanda Nàgô é o Exu Primordial dessa Banda, responsável por sua fundação; trata-se de um espírito muito antigo conectado a deidades guerreiras, das águas (mares e rios) e das matas, espíritos diversos da natureza e dos mortos. Na Quimbanda Nàgô ele está conectado ao Reino Africano (e por esse motivo algumas vertentes que não operam com este Reino o classificam no Reino das Almas), mas com intensa atuação no Reino das Matas e da Calunga Grande (Praia).

 

Os símbolos de Exu Gererê são a espada e o tridente, considerado ser um general guerreiro e mestre da guerra na Quimbanda Nàgô. Outro símbolo atribuído a Exu Gererê é o peixe, por isso muitos também o associam a pesca, a fartura, a multiplicação, o progresso e a prosperidade, refletindo a abundância dos mares. A palavra gererê vem do tupi iereré que significa o ato de pescar usando uma vara chamada puça. No ponto riscado de Exu Gererê vê-se o símbolo do peixe e abaixo dele o símbolo do Elemento Água (e do signo de Aquário, o portador das águas). Esses dois símbolos unidos dão um significado mais esotérico a pesca como algo não realizado, conhecimento ou sabedoria não apreendida; em outras palavras, compreender algo que está à frente, mas que necessita de investigação para que paulatinamente possamos solucionar a questão, ou seja, trata-se da própria iniciação. Exu Gererê vem pescar almas profanas e conduzi-las ao caminho da iniciação, da compreensão correta e da gnose. Por esse motivo algumas casas associam Exu Gererê a Lúcifer, o portador da luz do conhecimento. Se levarmos toda essa questão aos domínios da Árvore da Vida, fica fácil associar Exu Gererê ao 28° Caminho que concentra muita força e poder e conecta Yesod a Netzach, ao Atu IV do Tarot, o Imperador (o Filho da Manha, o Chefe entre os Poderosos) e a letra hebraica Tzaddi, que significa anzol. O anzol é o que prende o peixe, que o fisga, da mesma maneira que Exu Gererê fisga e prende os adeptos ao caminho da iniciação.

 

Exu Gererê está diretamente associado aos poderes e virtudes do Sol, da Lua e do Fogo, que são as potências dos três Maiorais da Quimbanda. Fogo e Água são elementos profundamente conectados a Exu Gererê, por isso sua bebida predileta é a cachaça que simboliza a união desses elementos tão antagônicos. Por conta dessa alquimia Exu Gererê atua diretamente no gerenciamento das emoções.

O Sol, a Lua e o Fogo simbolizando os Maiorais respectivamente, Beelzebuth, Ashtaroth e Lúcifer, têm um significado esotérico mais profundo herdado da tradição cipriânica-faustina da magia, associado a atuação de Exu Gererê e de todo Povo de Ganga, pois estes elementos representam a operação alquímica de morte e renascimento necessária a deificação da alma e a admissão ao Reinado do Chefe Império Maioral como Exu ou Pombagira no pós-vida. O Fogo (Lúcifer) é o ímpeto ígneo da Verdadeira Vontade em busca do autoconhecimento e emancipação espiritual; o Sol é o elemento ativo-criativo e fálico-masculino; a Lua é o elemento passivo-fecundo e receptivo-feminino. Nos grimórios da magia cipriânica-faustina esses símbolos e a operação alquímica que eles representam estavam associados aos três demônios líderes das hostes infernais, genitores dos diversos diabos abaixo deles. Essa dinâmica criativa da demonologia dos grimórios alimentou as estruturas da formação do Culto de Exu no Brasil.

 

Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela (Fernando Liguori)

Cova de Cipriano Feiticeiro

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite