Seja bem vindo ao site do Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela do Exu Pantera Negra, Mestre de Quimbanda Nàgô, aprontado pelo Táta Nganga Kimbanda Malembu Mikunga do Exu Sete Catacumbas, por sua vez aprontado pelo Táta Nganga Kimbanda Kilumbu do Exu Marabô. Salve todo Povo de Ganga e o Exu Rei de Ganga. Saravá os ancestrais, padrinhos e mestres espirituais. Saudações a todos que vieram antes de mim. Salve os Maiorais de Quimbanda e todas as Legiões de Exus e Pombagiras. Kiwa Bakul'epanzô! Nguzo ê Quimbanda!    ​

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APRESENTAÇÃO
ao site Tradição de Quimbanda Nàgô

A Quimbanda é uma tradição de feitiçaria brasileira nascida a partir do sangue derramado em nossas terras de antigos guerreiros e feiticeiros africanos, pajés e caçadores ameríndios, criminosos e bruxas ibéricas julgadas e exiladas pelo Santo Ofício de Portugal. O espírito do kimbanda nasceu desse entroncamento de linhas ancestrais africanas, ameríndias e europeias nas profundezas escuras das matas brasileiras. Os primeiros tátas, antigos espíritos ancestrais fundadores da Quimbanda, os primeiros Exus, foram heróis do Quilombo e dos malês, índios na mata e escravos da senzala que se ergueram em revolta contra os opressores cristãos, colonizadores escravagistas. É dessa luta e resistência, é desse entrecruzamento ancestral de poder, que nasce o Espírito da Quimbanda!

A gênese primitiva do Culto de Exu (que viria se tornar a Quimbanda no Séc. XIX) no seu primeiro momento (período que se estende do Séc. XVI ao Séc. XIX, desde os primeiros Calundus baianos até a Macumba carioca e paulista) ocorreu a partir de um  intricado sincretismo entre as culturas banto (ngangas e tátas) e nàgô-yorùbá (Èṣú òrìṣà) da África, a cultura tupíguaraní (pajés e encantados) e a feitiçaria ibérica (tradição cipriânica-faustina).

A Quimbanda é filha, portanto, de uma herança cultural miscigenada que se manifestou nesse primeiro momento na forma de variados cultos ao longo do tempo, tentativas diversas de resistência e resgate cultural que aglomeravam elementos multiculturais como os Calundus baianos e seus derivados diretos, os terreiros de Candomblé, a Cabula que concentrava muito saber da cultura e religião banto e sua derivada direta, a Macumba do Rio de Janeiro e São Paulo, que agregou sabedoria e fundamentos banto e nàgô-yorùbá.

Esses movimentos espirituais diversos que se manifestaram ao longo desse primeiro momento acompanharam o desenvolvimento cultural brasileiro, suas diversas convulsões sociais, a luta de classes e a transição de um sistema econômico agrícola para um sistema industrial. Foi assim que os Calundus das matas se transformaram nos Candomblés do asfalto; foi assim que a Cabula das matas se transformou na Macumba das favelas e morros do Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Em meados do Séc. XIX inicia-se o segundo momento do Culto de Exu no Brasil quando nasce a Quimbanda, derivada urbana direta da Macumba (e sua irmã embranquecida, a Umbanda). Diferente de sua irmã, a Umbanda, que caiu seduzida pelos encantos eurocentristas e escravocratas do regime cultural vigente e fascinada pela religião e dogma cristãos, a Quimbanda resistiu e a partir de meados do Séc. XIX começou a estruturar-se como legítima tradição de feitiçaria brasileira, preservando as práticas animistas, a cosmovisão fetichista, o comportamento insurgente e tribal dos negros e escravos intocados nas profundezas da mata escura em um culto a ancestrais (espíritos de mortos) divinizados, um sistema necromântico de feitiçaria nascido das entranhas de nossa terra.

Os Exus e as Pombagiras da Quimbanda são ancestrais espirituaisespíritos tutelares de um sistema brasileiro de feitiçaria que converge os ngangas e tátas da religião dos bantos e os fundamentos de Èṣú òrìṣà da cultura nàgô-yorubá. A Gnose do Culto de Exu no Brasil depende inicialmente dessa convergência sincrética entre essas duas culturas mágico-espirituais da África, associando a isso a influência do xamanismo ameríndio e da feitiçaria ibérica cipriânica-faustina. Tratam-se de Mestres Espirituais que nos acompanham e nos auxiliam na jornada da encarnação, nos orientando e zelando pelos caminhos de nossa alma. A feitiçaria tradicional brasileira é uma arte que desperta o homem para seus tutores espirituais, os Exus e Pombagiras. Cultuá-los, render-lhes adoração através de oferendas e sacrifícios, cria alianças e pactos com eles. Em acordo as tradições de Cabalá Crioula (quer dizer, os arcanos e a sabedoria que vêm da África), o melhor meio de comunicação com os ancestrais é o sacrifício propiciatório. Imolar um animal cerimonialmente em honra as deidades da Quimbanda, os Exus e as Pombagiras, trata-se de uma ação teúrgica-sacerdotal que estreita a comunicação com eles. Desde tempos imemoriais, o sacrifício propiciatório tem sido uma ferramenta teúrgica para comunicação com o mundo espiritual.

Na teurgia de inúmeras culturas da Antiguidade clássica e tardia, a ciência do corte era o eixo do culto porque é do sacrifício propiciatório que todos os outros fenômenos teúrgicos rituais ocorrem: divinação através de oráculos, divinação por incorporação mediúnica, purificação, ascensão da alma, consagrações, imantações etc. O corte é o elemento fundamental que dá a ignição no processo teúrgico. Na feitiçaria tradicional brasileira não é diferente: a ciência do corte é o eixo da cerimônia mágica de Quimbanda. Dessa maneira, a prática da feitiçaria tradicional brasileira está em direta harmonia e conexão com a prática da teurgia (e goécia) como compreendida na Antiguidade clássica e tardia. Nas religiões pré-cristãs da Antiguidade o sacrifício de um animal consagrado e santificado para a teurgia tratava-se de um ofício sagrado. O sangue carrega a essência da vida que alimentava as deidades. Por meio do sangue sacrificial se estreitam os laços entre os homens e os deuses, entre as almas encarnadas e seus ancestrais; buscava-se através do sangue por proteção espiritual e cura das mazelas do corpo e da mente; o sangue do sacrifício era uma oferenda que glorificava as deidades, seus poderes, e através dele era esperado receber as virtudes e bênçãos dos deuses e ancestrais. Como o sangue está estreitamente conectado a fertilidade e continuidade da vida, o sacrifício era o ato teúrgico de se doar a vida para receber dos deuses a própria vida na forma de renovação espiritual em nossa jornada encarnados na matéria. Além disso, acreditava-se que o sacrifício libertava a alma do animal de seu cativeiro no reino da geração, o que garantia a continuação de sua existência no pós morte: todo animal sacrificado torna-se um espírito de alma deificada. Isso tem implicações profundas e um grande impacto na carreira magística/teúrgica, pois que estes espíritos podem auxiliar o feiticeiro em sua jornada. Este arcano iniciático do passado está presente, por exemplo, nos Papiros Mágicos Gregos. Na feitiçaria dos papiros um falcão é deificado através de um sacrifício teúrgico, responsável por torná-lo um paredros, um espírito assistente.

A ciência do corte ou sacrifício magístico-sacerdotal de deificação animal é a ferramenta fundamental de trabalho mágico da feitiçaria tradicional brasileira. Trata-se de uma ciência porque por meio dela o kimbanda purifica e deífica sua alma. O corte não apenas alimenta as entidades, mas também produz uma poderosa alquimia na alma do feiticeiro. O primeiro sacrifício realizado pelo feiticeiro é fundamental para iniciar este processo alquímico na alma, assim como aproximá-lo definitivamente de seu Exu Tutelar que o acompanhará em sua jornada espiritual. Isso está em direta sincronia com a teurgia universal de todos os tempos e culturas do passado.

Em meu trabalho procuro construir uma ponte entre a feitiçaria tradicional brasileira, o Culto de Exu (Quimbanda) e a feitiçaria e Cultos de Mistérios da Antiguidade, demonstrando como a teurgia e goécia universais caminham de mãos dadas pelas veredas que Exu trilha.  Minhas conclusões sobre a tradição são fruto de uma imersão espiritual de trinta anos de jornada em culturas magísticas diversas. O que me proponho é uma tarefa difícil: demonstrar que a Quimbanda é uma genuína tradição brasileira de feitiçaria, mistérios e iniciação de mão esquerda. Para isso eu construo uma ponte entre a feitiçaria da Quimbanda e seu sistema de iniciação com a goécia (feitiçaria) e teurgia da Antiguidade. A Quimbanda inclui ou herda a essência pura da goécia e teurgia presentes na Antiguidade clássica e tardia. As técnicas de feitiçaria e teurgia são universais, mudando pouca coisa de cultura para cultura. O corte e a oferenda que um kimbanda faz as deidades da tradição, os Exus e Pombagiras, o teurgo e sacerdote dos deuses também fazia na Antiguidade. Procedimentos semelhantes, objetivos idênticos: celebrar a potencia dos espíritos e clamar por sua intervenção entre nós, purificando e sutilizando a alma, e auxiliando nas demandas da vida secular. O corte ou sacrifício animal era o eixo da teurgia na Antiguidade e permaneceu o mesmo eixo da teurgia que existe dentro da Quimbanda. Essa abordagem pode ser impactante aos tradicionalistas; no entanto, sob um olhar mais profundo, sob uma atenção mais cuidadosa, a Quimbanda encerra todos os arcanos e mistérios da goécia e teurgia universais.